quinta-feira, 3 de fevereiro de 2011

Revolução e Ironia

Após a Queda do Muro de Berlim e o fim da Guerra Fria, a justificativa para a invasão e/ou ocupação de países deixou de ser o alinhamento aos sistemas capitalista ou socialista. A defesa da democracia tornou-se, principalmente entre os países capitalistas, a principal bandeira para explicar tal ingerência. Dessa forma, alegando falta de regime político que contemple a participação efetiva da população, os países do Ocidente, liderados pelos EUA, invadiram, nos últimos vinte anos, diversas nações, entre elas: Iraque (por duas vezes), Sérvia e Afeganistão.
A ironia de tudo isso está no fato de que, muitos países governados há anos por ditadores, são apoiados e recebem ajuda financeira dos EUA e parte da Europa. Os conflitos das últimas semanas nos países árabes escancaram essa contradição. O presidente/ditador da Tunísia Zine El Abidine Ben Ali estava no poder a 23 anos. Ben Ali foi deposto em 14 de janeiro após onda de intensos protestos, exigindo mudanças no regime e maior participação política da população, ou seja, uma revolução. No entanto, os paladinos da democracia - nas palavras de Georg W. Bush “um direito de todos os povos” - desta vez não se manifestaram. Ao contrário, a Casa Branca mantém-se num silêncio de cemitério com comentários ocasionais e vazios.
Especialistas em política internacional afirmam que as relações entre os países são, nos dias de hoje, determinadas pela realpolitik, e que isso justificaria o posicionamento e comportamento pragmáticos das principais potências mundiais. Mesmo discordando, aceito o argumento. Porém, não tolero o blá blá blá das grandes potências em se autodeclararem defensores de valores democráticos e diante de revoltas legítimas por participação democrática, esses mesmos países se calarem e apresentarem afirmações esvaziadas e covardes.
Os episódios no Egito, uma tentativa de revolução, simbolizam ainda mais a incoerência dos supostos donos do mundo, pois, estes apóiam Hosni Mubarack, um ditador que está no poder a quase 30 anos e só permanece ou permaneceu (até a conclusão deste artigo) devido aos dólares e armamentos dos países ricos, com destaque para os EUA e Israel.
Portanto, os donos do mundo deveriam como apregoam quando há interesse, respeitar a vontade dos povos de cada nação e não impor o seu modo de sentir, pensar e fazer para os países que não se encaixam no modelo Ocidental. O restante do mundo, a cada dia que passa, percebe a falácia dos discursos de países como EUA, Inglaterra e França e não aceita mais as intervenções típicas do período da Guerra Fria. Talvez uma novíssima ordem mundial possa estar se formando. Nesta, o outro não terá o “direito” de dizer o que é melhor para um determinado país, mas, o seu povo, como rege a real democracia, decidirá o seu próprio destino. Oxalá!

Rogério de Souza.
Publicado no "Jornal da Economia" (São Roque) em 04/02/2011 - A2

segunda-feira, 27 de dezembro de 2010

Cursinho da ETEC apresenta bons resultados e aumenta número de vagas para o próximo ano



Estão programadas para a segunda quinzena de janeiro de 2011 a divulgação das inscrições para o Cursinho Popular do Centro Paula Souza - Escola Técnica Estadual (ETEC) de São Roque. O cursinho é uma parceria entre a ETEC e a prefeitura de São Roque.
Satisfeito com os resultados do trabalho desenvolvido pela ETEC o Prefeito Efaneu Nolasco Godinho renovou a realização do projeto sócio educativo e exigiu a ampliação das vagas. A primeira foi formada por 80 alunos e para o próximo ano serão 200 vagas oferecidas divididas em dois grupos: 100 vagas para o período noturno de segunda a sexta-feira e 100 vagas para o grupo que terá aulas aos sábados das 8h às 18h20.
“Temos que dar oportunidade para aqueles que não têm condições de pagar um cursinho preparatório para o vestibular. A primeiro turma mostrou bons rendimentos, tivemos alunos que passaram para segunda fase do vestibular da Unesp (Universidade Estadual Paulista), e alguns alunos que tem grande chances de conseguir bolsas em faculdades locais, isso é maravilhoso”, comemorou o prefeito.
O cursinho popular da ETEC é gratuito e voltado para a população de baixa renda de São Roque e oferece material didático gratuito (apostilas do cursinho da Poli), além professores altamente qualificados.

Fonte: Site da Prefeitura de São Roque - 17/12/2010

Sugestão de leitura

O jornal O Estado de São Paulo de domingo (26/12/2010) trouxe, no caderno Aliás, análises de diferentes personalidades que se destacaram no ano de 2010. Vale a pena ler.

- Sobre Lula: artigo do prof. Marco Aurélio Nogueira
http://www.estadao.com.br/noticias/suplementos,nada-sera-como-antes,658119,0.htm

- Sobre Julian Assange: artigo de Sérgio Augusto
http://www.estadao.com.br/noticias/suplementos,mr-wikileaks,658127,0.htm

- Sobre Sarah Palin: artigo de Lucia Guimarães
http://www.estadao.com.br/noticias/suplementos,a-mal-amada-heroina-dos-alienados,658123,0.htm

Sugestão de leitura

Durante o período da Graduação, conheci pessoas inteligentes, mas o Pablo Augusto da Silva destacou-se entre essas. Com um senso crítico aguçado e uma grande preocupação com a coerência conceitual, não poderia esperar outra coisa senão a publicação da sua dissertação de mestrado.
Recomendo a leitura do seu agora livro: "O Mundo Como Catástrofe e Representação: Testemunho e Trauma na Literatura do Sobrevivente", de Pablo Augusto da Silva, Annablume, 2010.

Formatura do Ensino Médio da Etec de São Roque


Parabéns caros alunos pela conclusão do Ensino Médio e boa sorte nas novas empreitadas.
Segue abaixo discurso que proferi na Formatura do dia 18/12/2010.
***
Boa noite formandos e parabéns pela cerimônia.

Gostaria de agradecê-los pela homenagem e oportunidade. É isso mesmo: oportunidade. Pois encarei a escolha de ser homenageado pela primeira turma de formandos do Ensino Médio da Etec de São Roque como uma oportunidade para ministrar a última aula que vocês terão nesta instituição.
Para essa última aula queria destacar, rapidamente, três ideias que, penso, possam servir para nortear a vida de vocês.

1) Planejamento

Planejar é avaliar os caminhos que pretendemos seguir, e, a partir daí, estabelecer nossas ações. Ou seja, é o lado racional da nossa ação.
O término do Ensino Médio, que coincide com o início da maioridade, é um excelente momento da vida para planejarmos.
Quando criança, falávamos: o que eu você ser quando crescer? Mas eu já cresci! Então, hoje, nos perguntamos: o que eu vou ser? Vou fazer uma faculdade? Vou procurar um emprego? Vou continuar estudando para entrar em uma faculdade concorrida (no Cursinho Popular da Etec)? Não vou fazer nada? (sobre este último, é bom avisar os pais).
Então, planeje o caminho que vocês pretendem seguir. Não achem que as coisas irão acontecer naturalmente, pois, a vida é muito mais complicada do que frases feitas como “deixa a vida me levar, vida leva eu”. Planejem aquilo que vocês pretendem ser!

2) Perseverança

Muitos de vocês já enfrentaram problemas. No entanto, sinto informa-lhes que enfrentarão diversos outros. Porque a vida é, entre outras coisas, a superação e a não superação de problemas.
Por isso, os obstáculos que vocês enfrentaram até agora - o meu “casinho” não veio à formatura; este vestido me deixou gorda; não passei no vestibular -, serão esquecidos com o aparecimento de novos problemas. Mas para superar esses novos desafios, vocês precisam ter perseverança. Ou seja, insistir para alcançar o objetivo, não desanimar com os obstáculos que aparecerão e lembrar que, uma boa batalha se vence na véspera, ou seja, preparando-se.

3) Ética

Por último gostaria de falar de um tema espinhoso para nós brasileiros, porém, necessário se pretendemos viver num Brasil melhor: a ética.
Ética é a reflexão que fazemos das nossas ações, especialmente, quando estamos diante de dilemas. Ex.: preciso estacionar rápido para pegar o banco aberto, porém, não encontro local para estacionar, a não ser a vaga reservada para idosos. O que fazer?
Então, queria sugerir uma espécie de lembrete para guiar nossas ações. São, na verdade, três perguntas que devemos nos fazer quando nos encontramos num dilema ético:
- O que eu quero?
- O que eu devo?
- O que eu posso?

Se respondermos de forma positiva as três questões é sinal de que estamos agindo dentro da ética. Ex.:
a) Queria ficar com tal garota e ela está a fim de ficar comigo. Mas ela é namorada de um grande amigo meu. Eu quero. Eu posso. Mas eu devo?

b) Queria pegar o carro do meu pai para ir para baile de formatura. Meu pai não está em casa. Porém não tenho carta de motorista. Mas eu devo?

c) Prova final e a professora, distraída, deixou em cima da mesa o gabarito! Eu posso. Eu quero. Mas eu devo?

d) A caixa do supermercado deu o troco errado. Já me explicaram que tiram do salário da caixa quando os valores não batem. Eu posso. Mas eu devo? Mas eu quero?

Para concluir esta última aula, espero que planeje as ações de vocês, que não desistam diante dos obstáculos e que a vida de vocês seja marcada por ações que orgulhem os seus pais e, no futuro, os seus filhos, ou seja, dentro da máxima: O que eu quero? O que eu devo? O que eu posso?

Obrigado a todos.

sexta-feira, 17 de dezembro de 2010

O neo desenvolvimentismo do Governo Lula

Aloizio Mercadante concluiu o seu Doutorado na Unicamp defendendo tese de que o governo Lula imprimiu uma nova forma de desenvolvimento: o neo desenvolvimentismo (crescimento econômico com inclusão social).

Segue abaixo matéria sobre o assunto.


Delfim Netto critica "exageros" de Mercadante em defesa de tese sobre o governo Lula
Mauricio Stycer
Do UOL Notícias
Em Campinas (SP)

Futuro ministro da Ciência e Tecnologia no governo Dilma, o senador Aloizio Mercadante (PT-SP) defendeu nesta sexta-feira (17), no Instituto de Economia da Unicamp, em Campinas (SP), tese de doutorado sobre a política econômica do governo Lula. A tese foi aprovada, mas recebeu críticas da banca, formada pelos economistas Delfim Netto, Luiz Carlos Bresser Pereira, Ricardo Abramovay e João Manuel Cardoso de Mello.
A defesa da tese foi presenciada por cerca de 300 pessoas – duas centenas espremidas num auditório lotado, e mais cem, por meio de um telão, num espaço anexo. Mercadante, que se desligou da Unicamp na década de 90 sem concluir o doutorado, pediu reingresso na universidade no final de 2009, um procedimento previsto pelo regimento interno.
Sua tese defende a ideia de que o governo Lula estabeleceu um novo modelo de crescimento econômico, o “neo-desenvolvimentismo”, diferente do “nacional-desenvolvimentismo”, que vigorou na década de 70, e do neoliberalismo, a partir dos anos 90. Este novo modelo, disse, se construiu a partir do primado da política social sobre a econômica.
Dizendo-se à vontade para defender o governo Lula na universidade, depois de fazer isso por oito anos no Senado, Mercadante desfiou dezenas de números e estatísticas sobre o desempenho da economia nos últimos oito anos, enalteceu a política externa e detalhou as diferentes políticas sociais do governo, nas áreas de saúde, educação e previdência.
Empolgado, falou por quase uma hora, o dobro do tempo que lhe foi concedido. Em algumas passagens, a apresentação de Mercadante lembrou a propaganda da então candidata Dilma Rousseff durante a campanha eleitoral.
Delfim Netto não perdoou. Começou sua arguição logo provocando: “Sua história é muito boa, Aloizio”, disse. “Mas há alguns exageros”, apontou, provocando gargalhadas da plateia, formada basicamente por alunos e professores da Unicamp.
Delfim lembrou que as premissas desta política econômica “inclusiva” do governo Lula estão dadas pela Constituição de 1988 – apenas não haviam sido colocadas em prática, disse, pelos governos Sarney, Collor, Itamar e FHC.

“Fidelidade tribal a Lula”

Conselheiro econômico do governo (“Tenho fidelidade tribal, inexplicável, ao Lula”, afirmou), Delfim questionou a avaliação de Mercadante sobre a política econômica do governo FHC. Segundo a tese, os tucanos teriam se submetido ao chamado “Consenso de Washington”, que ditou as regras de uma política econômica neoliberal.
“O governo Fernando Henrique não usou Consenso de Washington nenhum”, disse Delfim. “O governo sabia que 30% dos problemas são insolúveis e 70% o tempo resolve”, completou, arrancando mais gargalhadas.
Delfim criticou a política cambial do governo Lula e o crescimento muito modesto do volume de exportações em relação ao PIB do país no período. “Do ponto de vista externo, não fizemos nada”, observou Delfim, usando a primeira pessoa do plural. “Nossa política monetária também não foi muito melhor que a do Fernando Henrique”, criticou. “Houve conservadorismo na política monetária”, concordou Mercadante.

“Nesta história tenho lado”

Em sua réplica a Delfim, Mercadante fez menção às “ironias” do economista e rechaçou a crítica sobre os exageros de sua defesa do governo. “Nesta história tenho lado”, disse, defendendo a ideia de que não é necessário dissociar “razão de emoção” mesmo num trabalho acadêmico.
Bresser Pereira, autor do termo “neo-desenvolvimentismo”, adotado por Mercadante, elogiou a tese, mas criticou a falta de um debate teórico no trabalho. O economista criticou as falhas do governo Lula na área de gestão, um problema também apontado por Delfim. E igualmente lamentou a ausência de críticas à política cambial, “claramente um fracasso deste governo”.
A economista Maria da Conceição Tavares, que também faria parte da banca, não compareceu. Enviou um bilhete, elogiando o trabalho do “discípulo” e aprovando a tese central do trabalho: “O novo desenvolvimentismo não se parece nada com o nacional-desenvolvimentismo”, disse, em sua mensagem.

“Um trabalho de combate”

Único professor da Unicamp na banca, João Manoel Cardoso de Mello elogiou o “aluno” Mercadante e aprovou o viés político da tese. “Não vejo nenhum problema em ser um trabalho de combate”, disse, defendendo-o das ironias de Delfim Netto.
“O trabalho se equilibra bem entre a apologia do governo e o diálogo imaginário dos opositores”, disse. “Fernando Henrique se achava o Juscelino (Kubitscheck), mas se revelou um (Eurico Gaspar) Dutra”, afirmou, sendo aplaudido pela plateia.
João Manoel também mencionou as “barbeiragens terríveis da política monetária” do governo Lula, não tratadas na tese. Criticou o tamanho do trabalho e lamentou que Mercadante não tenha feito uma reflexão sobre o futuro. “Acho que faltou olhar para frente”, disse.
Na plateia, muitos estudantes acompanharam o debate de pé ou sentados no chão. Convidados a assistir no espaço anexo, pelo telão, não se moveram. “É igual ver jogo da Copa. Você prefere ver ao vivo ou pela tevê?”, perguntou o estudante Diego Santiago Lopez. Diante do espanto de seus colegas, rapidamente se corrigiu: “Quer dizer, jogo de Copa é muito melhor que defesa de tese”. Verdade inquestionável.

domingo, 28 de novembro de 2010

A violência no Rio de Janeiro

A explosão da violência no Rio de Janeiro tem causado um forte sentimento de desespero e comoção nacional. Devido à gravidade dos acontecimentos e influenciados por parte da mídia brasileira – mais preocupada com os altos índices de audiência do que com a solução do problema, poucos conseguem fazer uma leitura lúcida dos fatos.

Luiz Eduardo Soares, ex-Secretário de Segurança do Rio de Janeiro e ex-Secretário Nacional de Segurança Pública produziu uma reflexão que nos ajuda a alargar a visão sobre acontecimentos tão complicados.

Trata-se de uma reflexão coerente e indispensável para aqueles que estão dispostos a entender o tema de maneira crítica.

Boa leitura, Rogério de Souza.

A crise no Rio e o pastiche midiático

Luiz Eduardo Soares

Sempre mantive com jornalistas uma relação de respeito e cooperação. Em alguns casos, o contato profissional evoluiu para amizade. Quando as divergências são muitas e profundas, procuro compreender e buscar bases de um consenso mínimo, para que o diálogo não se inviabilize. Faço-o por ética –supondo que ninguém seja dono da verdade, muito menos eu--, na esperança de que o mesmo procedimento seja adotado pelo interlocutor. Além disso, me esforço por atender aos que me procuram, porque sei que atuam sob pressão, exaustivamente, premidos pelo tempo e por pautas urgentes. A pressa se intensifica nas crises, por motivos óbvios. Costumo dizer que só nós, da segurança pública (em meu caso, quando ocupava posições na área da gestão pública da segurança), os médicos e o pessoal da Defesa Civil, trabalhamos tanto –ou sob tanta pressão-- quanto os jornalistas.
Digo isso para explicar por que, na crise atual, tenho recusado convites para falar e colaborar com a mídia:
(1) Recebi muitos telefonemas, recados e mensagens. As chamadas são contínuas, a tal ponto que não me restou alternativa a desligar o celular. Ao todo, nesses dias, foram mais de cem pedidos de entrevistas ou declarações. Nem que eu contasse com uma equipe de secretários, teria como responder a todos e muito menos como atendê-los. Por isso, aproveito a oportunidade para desculpar-me. Creiam, não se trata de descortesia ou desapreço pelos repórteres, produtores ou entrevistadores que me procuraram.
(2) Além disso, não tenho informações de bastidor que mereçam divulgação. Por outro lado, não faria sentido jogar pelo ralo a credibilidade que construí ao longo da vida. E isso poderia acontecer se eu aceitasse aparecer na TV, no rádio ou nos jornais, glosando os discursos oficiais que estão sendo difundidos, declamando platitudes, reproduzindo o senso comum pleno de preconceitos, ou divagando em torno de especulações. A situação é muito grave e não admite leviandades. Portanto, só faria sentido falar se fosse para contribuir de modo eficaz para o entendimento mais amplo e profundo da realidade que vivemos. Como fazê-lo em alguns parcos minutos, entrecortados por intervenções de locutores e debatedores? Como fazê-lo no contexto em que todo pensamento analítico é editado, truncado, espremido –em uma palavra, banido--, para que reinem, incontrastáveis, a exaltação passional das emergências, as imagens espetaculares, os dramas individuais e a retórica paradoxalmente triunfalista do discurso oficial?
(3) Por fim, não posso mais compactuar com o ciclo sempre repetido na mídia: atenção à segurança nas crises agudas e nenhum investimento reflexivo e informativo realmente denso e consistente, na entressafra, isto é, nos intervalos entre as crises. Na crise, as perguntas recorrentes são: (a) O que fazer, já, imediatamente, para sustar a explosão de violência? (b) O que a polícia deveria fazer para vencer, definitivamente, o tráfico de drogas? (c) Por que o governo não chama o Exército? (d) A imagem internacional do Rio foi maculada? (e) Conseguiremos realizar com êxito a Copa e as Olimpíadas?
Ao longo dos últimos 25 anos, pelo menos, me tornei “as aspas” que ajudaram a legitimar inúmeras reportagens. No tópico, “especialistas”, lá estava eu, tentando, com alguns colegas, furar o bloqueio à afirmação de uma perspectiva um pouquinho menos trivial e imediatista. Muitas dessas reportagens, por sua excelente qualidade, prescindiriam de minhas aspas –nesses casos, reduzi-me a recurso ocioso, mera formalidade das regras jornalísticas. Outras, nem com todas as aspas do mundo se sustentariam. Pois bem, acho que já fui ou proporcionei aspas o suficiente. Esse código jornalístico, com as exceções de praxe, não funciona, quando o tema tratado é complexo, pouco conhecido e, por sua natureza, rebelde ao modelo de explicação corrente. Modelo que não nasceu na mídia, mas que orienta as visões aí predominantes. Particularmente, não gostaria de continuar a ser cúmplice involuntário de sua contínua reprodução.
Eis por que as perguntas mencionadas são expressivas do pobre modelo explicativo corrente e por que devem ser consideradas obstáculos ao conhecimento e réplicas de hábitos mentais refratários às mudanças inadiáveis. Respondo sem a elegância que a presença de um entrevistador exigiria. Serei, por assim dizer, curto e grosso, aproveitando-me do expediente discursivo aqui adotado, em que sou eu mesmo o formulador das questões a desconstruir. Eis as respostas, na sequência das perguntas, que repito para facilitar a leitura:
(a) O que fazer, já, imediatamente, para sustar a violência e resolver o desafio da insegurança?
Nada que se possa fazer já, imediatamente, resolverá a insegurança. Quando se está na crise, usam-se os instrumentos disponíveis e os procedimentos conhecidos para conter os sintomas e salvar o paciente. Se desejamos, de fato, resolver algum problema grave, não é possível continuar a tratar o paciente apenas quando ele já está na UTI, tomado por uma enfermidade letal, apresentando um quadro agudo. Nessa hora, parte-se para medidas extremas, de desespero, mobilizando-se o canivete e o açougueiro, sem anestesia e assepsia. Nessa hora, o cardiologista abre o tórax do moribundo na maca, no corredor. Não há como construir um novo hospital, decente, eficiente, nem para formar especialistas, nem para prevenir epidemias, nem para adotar procedimentos que evitem o agravamento da patologia. Por isso, o primeiro passo para evitar que a situação se repita é trocar a pergunta. O foco capaz de ajudar a mudar a realidade é aquele apontado por outra pergunta: o que fazer para aperfeiçoar a segurança pública, no Rio e no Brasil, evitando a violência de todos os dias, assim como sua intensificação, expressa nas sucessivas crises?
Se o entrevistador imaginário interpelar o respondente, afirmando que a sociedade exige uma resposta imediata, precisa de uma ação emergencial e não aceita nenhuma abordagem que não produza efeitos práticos imediatos, a melhor resposta seria: caro amigo, sua atitude representa, exatamente, a postura que tem impedido avanços consistentes na segurança pública. Se a sociedade, a mídia e os governos continuarem se recusando a pensar e abordar o problema em profundidade e extensão, como um fenômeno multidimensional a requerer enfrentamento sistêmico, ou seja, se prosseguirmos nos recusando, enquanto Nação, a tratar do problema na perspectiva do médio e do longo prazos, nos condenaremos às crises, cada vez mais dramáticas, para as quais não há soluções mágicas.
A melhor resposta à emergência é começar a se movimentar na direção da reconstrução das condições geradoras da situação emergencial. Quanto ao imediato, não há espaço para nada senão o disponível, acessível, conhecido, que se aplica com maior ou menor destreza, reduzindo-se danos e prolongando-se a vida em risco.
A pergunta é obtusa e obscurantista, cúmplice da ignorância e da apatia.
(b) O que as polícias fluminenses deveriam fazer para vencer, definitivamente, o tráfico de drogas?
Em primeiro lugar, deveriam parar de traficar e de associar-se aos traficantes, nos “arregos” celebrados por suas bandas podres, à luz do dia, diante de todos. Deveriam parar de negociar armas com traficantes, o que as bandas podres fazem, sistematicamente. Deveriam também parar de reproduzir o pior do tráfico, dominando, sob a forma de máfias ou milícias, territórios e populações pela força das armas, visando rendimentos criminosos obtidos por meios cruéis.
Ou seja, a polaridade referida na pergunta (polícias versus tráfico) esconde o verdadeiro problema: não existe a polaridade. Construí-la –isto é, separar bandido e polícia; distinguir crime e polícia-- teria de ser a meta mais importante e urgente de qualquer política de segurança digna desse nome. Não há nenhuma modalidade importante de ação criminal no Rio de que segmentos policiais corruptos estejam ausentes. E só por isso que ainda existe tráfico armado, assim como as milícias.
Não digo isso para ofender os policiais ou as instituições. Não generalizo. Pelo contrário, sei que há dezenas de milhares de policiais honrados e honestos, que arriscam, estóica e heroicamente, suas vidas por salários indignos. Considero-os as primeiras vítimas da degradação institucional em curso, porque os envergonha, os humilha, os ameaça e acua o convívio inevitável com milhares de colegas corrompidos, envolvidos na criminalidade, sócios ou mesmo empreendedores do crime.
Não nos iludamos: o tráfico, no modelo que se firmou no Rio, é uma realidade em franco declínio e tende a se eclipsar, derrotado por sua irracionalidade econômica e sua incompatibilidade com as dinâmicas políticas e sociais predominantes, em nosso horizonte histórico. Incapaz, inclusive, de competir com as milícias, cuja competência está na disposição de não se prender, exclusivamente, a um único nicho de mercado, comercializando apenas drogas –mas as incluindo em sua carteira de negócios, quando conveniente. O modelo do tráfico armado, sustentado em domínio territorial, é atrasado, pesado, anti-econômico: custa muito caro manter um exército, recrutar neófitos, armá-los (nada disso é necessário às milícias, posto que seus membros são policiais), mantê-los unidos e disciplinados, enfrentando revezes de todo tipo e ataques por todos os lados, vendo-se forçados a dividir ganhos com a banda podre da polícia (que atua nas milícias) e, eventualmente, com os líderes e aliados da facção. É excessivamente custoso impor-se sobre um território e uma população, sobretudo na medida que os jovens mais vulneráveis ao recrutamento comecem a vislumbrar e encontrar alternativas. Não só o velho modelo é caro, como pode ser substituído com vantagens por outro muito mais rentável e menos arriscado, adotado nos países democráticos mais avançados: a venda por delivery ou em dinâmica varejista nômade, clandestina, discreta, desarmada e pacífica. Em outras palavras, é melhor, mais fácil e lucrativo praticar o negócio das drogas ilícitas como se fosse contrabando ou pirataria do que fazer a guerra. Convenhamos, também é muito menos danoso para a sociedade, por óbvio.
(c) O Exército deveria participar?
Fazendo o trabalho policial, não, pois não existe para isso, não é treinado para isso, nem está equipado para isso. Mas deve, sim, participar. A começar cumprindo sua função de controlar os fluxos das armas no país. Isso resolveria o maior dos problemas: as armas ilegais passando, tranquilamente, de mão em mão, com as benções, a mediação e o estímulo da banda podre das polícias.
E não só o Exército. Também a Marinha, formando uma Guarda Costeira com foco no controle de armas transportadas como cargas clandestinas ou despejadas na baía e nos portos. Assim como a Aeronáutica, identificando e destruindo pistas de pouso clandestinas, controlando o espaço aéreo e apoiando a PF na fiscalização das cargas nos aeroportos.
(d) A imagem internacional do Rio foi maculada?
Claro. Mais uma vez.
(e) Conseguiremos realizar com êxito a Copa e as Olimpíadas?
Sem dúvida. Somos ótimos em eventos. Nesses momentos, aparece dinheiro, surge o “espírito cooperativo”, ações racionais e planejadas impõem-se. Nosso calcanhar de Aquiles é a rotina. Copa e Olimpíadas serão um sucesso. O problema é o dia a dia.

Palavras Finais

Traficantes se rebelam e a cidade vai à lona. Encena-se um drama sangrento, mas ultrapassado. O canto de cisne do tráfico era esperado. Haverá outros momentos análogos, no futuro, mas a tendência declinante é inarredável. E não porque existem as UPPs, mas porque correspondem a um modelo insustentável, economicamente, assim como social e politicamente. As UPPs, vale dizer mais uma vez, são um ótimo programa, que reedita com mais apoio político e fôlego administrativo o programa “Mutirões pela Paz”, que implantei com uma equipe em 1999, e que acabou soterrado pela política com “p” minúsculo, quando fui exonerado, em 2000, ainda que tenha sido ressuscitado, graças à liderança e à competência raras do ten.cel. Carballo Blanco, com o título GPAE, como reação à derrocada que se seguiu à minha saída do governo. A despeito de suas virtudes, valorizadas pela presença de Ricardo Henriques na secretaria estadual de assistência social --um dos melhores gestores do país--, elas não terão futuro se as polícias não forem profundamente transformadas. Afinal, para tornarem-se política pública terão de incluir duas qualidades indispensáveis: escala e sustentatibilidade, ou seja, terão de ser assumidas, na esfera da segurança, pela PM. Contudo, entregar as UPPs à condução da PM seria condená-las à liquidação, dada a degradação institucional já referida.
O tráfico que ora perde poder e capacidade de reprodução só se impôs, no Rio, no modelo territorializado e sedentário em que se estabeleceu, porque sempre contou com a sociedade da polícia, vale reiterar. Quando o tráfico de drogas no modelo territorializado atinge seu ponto histórico de inflexão e começa, gradualmente, a bater em retirada, seus sócios –as bandas podres das polícias-- prosseguem fortes, firmes, empreendedores, politicamente ambiciosos, economicamente vorazes, prontos a fixar as bandeiras milicianas de sua hegemonia.
Discutindo a crise, a mídia reproduz o mito da polaridade polícia versus tráfico, perdendo o foco, ignorando o decisivo: como, quem, em que termos e por que meios se fará a reforma radical das polícias, no Rio, para que estas deixem de ser incubadoras de milícias, máfias, tráfico de armas e drogas, crime violento, brutalidade, corrupção? Como se refundarão as instituições policiais para que os bons profissionais sejam, afinal, valorizados e qualificados? Como serão transformadas as polícias, para que deixem de ser reativas, ingovernáveis, ineficientes na prevenção e na investigação?
As polícias são instituições absolutamente fundamentais para o Estado democrático de direito. Cumpre-lhes garantir, na prática, os direitos e as liberdades estipulados na Constituição. Sobretudo, cumpre-lhes proteger a vida e a estabilidade das expectativas positivas relativamente à sociabilidade cooperativa e à vigência da legalidade e da justiça. A despeito de sua importância, essas instituições não foram alcançadas em profundidade pelo processo de transição democrática, nem se modernizaram, adaptando-se às exigências da complexa sociedade brasileira contemporânea. O modelo policial foi herdado da ditadura. Ele servia à defesa do Estado autoritário e era funcional ao contexto marcado pelo arbítrio. Não serve à defesa da cidadania. A estrutura organizacional de ambas as polícias impede a gestão racional e a integração, tornando o controle impraticável e a avaliação, seguida por um monitoramento corretivo, inviável. Ineptas para identificar erros, as polícias condenam-se a repeti-los. Elas são rígidas onde teriam de ser plásticas, flexíveis e descentralizadas; e são frouxas e anárquicas, onde deveriam ser rigorosas. Cada uma delas, a PM e a Polícia Civil, são duas instituições: oficiais e não-oficiais; delegados e não-delegados.
E nesse quadro, a PEC-300 é varrida do mapa no Congresso pelos governadores, que pagam aos policiais salários insuficientes, empurrando-os ao segundo emprego na segurança privada informal e ilegal.
Uma das fontes da degradação institucional das polícias é o que denomino "gato orçamentário", esse casamento perverso entre o Estado e a ilegalidade: para evitar o colapso do orçamento público na área de segurança, as autoridades toleram o bico dos policiais em segurança privada. Ao fazê-lo, deixam de fiscalizar dinâmicas benignas (em termos, pois sempre há graves problemas daí decorrentes), nas quais policiais honestos apenas buscam sobreviver dignamente, apesar da ilegalidade de seu segundo emprego, mas também dinâmicas malignas: aquelas em que policiais corruptos provocam a insegurança para vender segurança; unem-se como pistoleiros a soldo em grupos de extermínio; e, no limite, organizam-se como máfias ou milícias, dominando pelo terror populações e territórios. Ou se resolve esse gargalo (pagando o suficiente e fiscalizando a segurança privada /banindo a informal e ilegal; ou legalizando e disciplinando, e fiscalizando o bico), ou não faz sentido buscar aprimorar as polícias.
O Jornal Nacional, nesta quinta, 25 de novembro, definiu o caos no Rio de Janeiro, salpicado de cenas de guerra e morte, pânico e desespero, como um dia histórico de vitória: o dia em que as polícias ocuparam a Vila Cruzeiro. Ou eu sofri um súbito apagão mental e me tornei um idiota contumaz e incorrigível ou os editores do JN sentiram-se autorizados a tratar milhões de telespectadores como contumazes e incorrigíveis idiotas.
Ou se começa a falar sério e levar a sério a tragédia da insegurança pública no Brasil, ou será pelo menos mais digno furtar-se a fazer coro à farsa.

Disponível em: http://luizeduardosoares.blogspot.com/2010/11/crise-no-rio-e-o-pastiche-midiatico.html. Acesso em 27/11/2010.