segunda-feira, 27 de dezembro de 2010

Cursinho da ETEC apresenta bons resultados e aumenta número de vagas para o próximo ano



Estão programadas para a segunda quinzena de janeiro de 2011 a divulgação das inscrições para o Cursinho Popular do Centro Paula Souza - Escola Técnica Estadual (ETEC) de São Roque. O cursinho é uma parceria entre a ETEC e a prefeitura de São Roque.
Satisfeito com os resultados do trabalho desenvolvido pela ETEC o Prefeito Efaneu Nolasco Godinho renovou a realização do projeto sócio educativo e exigiu a ampliação das vagas. A primeira foi formada por 80 alunos e para o próximo ano serão 200 vagas oferecidas divididas em dois grupos: 100 vagas para o período noturno de segunda a sexta-feira e 100 vagas para o grupo que terá aulas aos sábados das 8h às 18h20.
“Temos que dar oportunidade para aqueles que não têm condições de pagar um cursinho preparatório para o vestibular. A primeiro turma mostrou bons rendimentos, tivemos alunos que passaram para segunda fase do vestibular da Unesp (Universidade Estadual Paulista), e alguns alunos que tem grande chances de conseguir bolsas em faculdades locais, isso é maravilhoso”, comemorou o prefeito.
O cursinho popular da ETEC é gratuito e voltado para a população de baixa renda de São Roque e oferece material didático gratuito (apostilas do cursinho da Poli), além professores altamente qualificados.

Fonte: Site da Prefeitura de São Roque - 17/12/2010

Sugestão de leitura

O jornal O Estado de São Paulo de domingo (26/12/2010) trouxe, no caderno Aliás, análises de diferentes personalidades que se destacaram no ano de 2010. Vale a pena ler.

- Sobre Lula: artigo do prof. Marco Aurélio Nogueira
http://www.estadao.com.br/noticias/suplementos,nada-sera-como-antes,658119,0.htm

- Sobre Julian Assange: artigo de Sérgio Augusto
http://www.estadao.com.br/noticias/suplementos,mr-wikileaks,658127,0.htm

- Sobre Sarah Palin: artigo de Lucia Guimarães
http://www.estadao.com.br/noticias/suplementos,a-mal-amada-heroina-dos-alienados,658123,0.htm

Sugestão de leitura

Durante o período da Graduação, conheci pessoas inteligentes, mas o Pablo Augusto da Silva destacou-se entre essas. Com um senso crítico aguçado e uma grande preocupação com a coerência conceitual, não poderia esperar outra coisa senão a publicação da sua dissertação de mestrado.
Recomendo a leitura do seu agora livro: "O Mundo Como Catástrofe e Representação: Testemunho e Trauma na Literatura do Sobrevivente", de Pablo Augusto da Silva, Annablume, 2010.

Formatura do Ensino Médio da Etec de São Roque


Parabéns caros alunos pela conclusão do Ensino Médio e boa sorte nas novas empreitadas.
Segue abaixo discurso que proferi na Formatura do dia 18/12/2010.
***
Boa noite formandos e parabéns pela cerimônia.

Gostaria de agradecê-los pela homenagem e oportunidade. É isso mesmo: oportunidade. Pois encarei a escolha de ser homenageado pela primeira turma de formandos do Ensino Médio da Etec de São Roque como uma oportunidade para ministrar a última aula que vocês terão nesta instituição.
Para essa última aula queria destacar, rapidamente, três ideias que, penso, possam servir para nortear a vida de vocês.

1) Planejamento

Planejar é avaliar os caminhos que pretendemos seguir, e, a partir daí, estabelecer nossas ações. Ou seja, é o lado racional da nossa ação.
O término do Ensino Médio, que coincide com o início da maioridade, é um excelente momento da vida para planejarmos.
Quando criança, falávamos: o que eu você ser quando crescer? Mas eu já cresci! Então, hoje, nos perguntamos: o que eu vou ser? Vou fazer uma faculdade? Vou procurar um emprego? Vou continuar estudando para entrar em uma faculdade concorrida (no Cursinho Popular da Etec)? Não vou fazer nada? (sobre este último, é bom avisar os pais).
Então, planeje o caminho que vocês pretendem seguir. Não achem que as coisas irão acontecer naturalmente, pois, a vida é muito mais complicada do que frases feitas como “deixa a vida me levar, vida leva eu”. Planejem aquilo que vocês pretendem ser!

2) Perseverança

Muitos de vocês já enfrentaram problemas. No entanto, sinto informa-lhes que enfrentarão diversos outros. Porque a vida é, entre outras coisas, a superação e a não superação de problemas.
Por isso, os obstáculos que vocês enfrentaram até agora - o meu “casinho” não veio à formatura; este vestido me deixou gorda; não passei no vestibular -, serão esquecidos com o aparecimento de novos problemas. Mas para superar esses novos desafios, vocês precisam ter perseverança. Ou seja, insistir para alcançar o objetivo, não desanimar com os obstáculos que aparecerão e lembrar que, uma boa batalha se vence na véspera, ou seja, preparando-se.

3) Ética

Por último gostaria de falar de um tema espinhoso para nós brasileiros, porém, necessário se pretendemos viver num Brasil melhor: a ética.
Ética é a reflexão que fazemos das nossas ações, especialmente, quando estamos diante de dilemas. Ex.: preciso estacionar rápido para pegar o banco aberto, porém, não encontro local para estacionar, a não ser a vaga reservada para idosos. O que fazer?
Então, queria sugerir uma espécie de lembrete para guiar nossas ações. São, na verdade, três perguntas que devemos nos fazer quando nos encontramos num dilema ético:
- O que eu quero?
- O que eu devo?
- O que eu posso?

Se respondermos de forma positiva as três questões é sinal de que estamos agindo dentro da ética. Ex.:
a) Queria ficar com tal garota e ela está a fim de ficar comigo. Mas ela é namorada de um grande amigo meu. Eu quero. Eu posso. Mas eu devo?

b) Queria pegar o carro do meu pai para ir para baile de formatura. Meu pai não está em casa. Porém não tenho carta de motorista. Mas eu devo?

c) Prova final e a professora, distraída, deixou em cima da mesa o gabarito! Eu posso. Eu quero. Mas eu devo?

d) A caixa do supermercado deu o troco errado. Já me explicaram que tiram do salário da caixa quando os valores não batem. Eu posso. Mas eu devo? Mas eu quero?

Para concluir esta última aula, espero que planeje as ações de vocês, que não desistam diante dos obstáculos e que a vida de vocês seja marcada por ações que orgulhem os seus pais e, no futuro, os seus filhos, ou seja, dentro da máxima: O que eu quero? O que eu devo? O que eu posso?

Obrigado a todos.

sexta-feira, 17 de dezembro de 2010

O neo desenvolvimentismo do Governo Lula

Aloizio Mercadante concluiu o seu Doutorado na Unicamp defendendo tese de que o governo Lula imprimiu uma nova forma de desenvolvimento: o neo desenvolvimentismo (crescimento econômico com inclusão social).

Segue abaixo matéria sobre o assunto.


Delfim Netto critica "exageros" de Mercadante em defesa de tese sobre o governo Lula
Mauricio Stycer
Do UOL Notícias
Em Campinas (SP)

Futuro ministro da Ciência e Tecnologia no governo Dilma, o senador Aloizio Mercadante (PT-SP) defendeu nesta sexta-feira (17), no Instituto de Economia da Unicamp, em Campinas (SP), tese de doutorado sobre a política econômica do governo Lula. A tese foi aprovada, mas recebeu críticas da banca, formada pelos economistas Delfim Netto, Luiz Carlos Bresser Pereira, Ricardo Abramovay e João Manuel Cardoso de Mello.
A defesa da tese foi presenciada por cerca de 300 pessoas – duas centenas espremidas num auditório lotado, e mais cem, por meio de um telão, num espaço anexo. Mercadante, que se desligou da Unicamp na década de 90 sem concluir o doutorado, pediu reingresso na universidade no final de 2009, um procedimento previsto pelo regimento interno.
Sua tese defende a ideia de que o governo Lula estabeleceu um novo modelo de crescimento econômico, o “neo-desenvolvimentismo”, diferente do “nacional-desenvolvimentismo”, que vigorou na década de 70, e do neoliberalismo, a partir dos anos 90. Este novo modelo, disse, se construiu a partir do primado da política social sobre a econômica.
Dizendo-se à vontade para defender o governo Lula na universidade, depois de fazer isso por oito anos no Senado, Mercadante desfiou dezenas de números e estatísticas sobre o desempenho da economia nos últimos oito anos, enalteceu a política externa e detalhou as diferentes políticas sociais do governo, nas áreas de saúde, educação e previdência.
Empolgado, falou por quase uma hora, o dobro do tempo que lhe foi concedido. Em algumas passagens, a apresentação de Mercadante lembrou a propaganda da então candidata Dilma Rousseff durante a campanha eleitoral.
Delfim Netto não perdoou. Começou sua arguição logo provocando: “Sua história é muito boa, Aloizio”, disse. “Mas há alguns exageros”, apontou, provocando gargalhadas da plateia, formada basicamente por alunos e professores da Unicamp.
Delfim lembrou que as premissas desta política econômica “inclusiva” do governo Lula estão dadas pela Constituição de 1988 – apenas não haviam sido colocadas em prática, disse, pelos governos Sarney, Collor, Itamar e FHC.

“Fidelidade tribal a Lula”

Conselheiro econômico do governo (“Tenho fidelidade tribal, inexplicável, ao Lula”, afirmou), Delfim questionou a avaliação de Mercadante sobre a política econômica do governo FHC. Segundo a tese, os tucanos teriam se submetido ao chamado “Consenso de Washington”, que ditou as regras de uma política econômica neoliberal.
“O governo Fernando Henrique não usou Consenso de Washington nenhum”, disse Delfim. “O governo sabia que 30% dos problemas são insolúveis e 70% o tempo resolve”, completou, arrancando mais gargalhadas.
Delfim criticou a política cambial do governo Lula e o crescimento muito modesto do volume de exportações em relação ao PIB do país no período. “Do ponto de vista externo, não fizemos nada”, observou Delfim, usando a primeira pessoa do plural. “Nossa política monetária também não foi muito melhor que a do Fernando Henrique”, criticou. “Houve conservadorismo na política monetária”, concordou Mercadante.

“Nesta história tenho lado”

Em sua réplica a Delfim, Mercadante fez menção às “ironias” do economista e rechaçou a crítica sobre os exageros de sua defesa do governo. “Nesta história tenho lado”, disse, defendendo a ideia de que não é necessário dissociar “razão de emoção” mesmo num trabalho acadêmico.
Bresser Pereira, autor do termo “neo-desenvolvimentismo”, adotado por Mercadante, elogiou a tese, mas criticou a falta de um debate teórico no trabalho. O economista criticou as falhas do governo Lula na área de gestão, um problema também apontado por Delfim. E igualmente lamentou a ausência de críticas à política cambial, “claramente um fracasso deste governo”.
A economista Maria da Conceição Tavares, que também faria parte da banca, não compareceu. Enviou um bilhete, elogiando o trabalho do “discípulo” e aprovando a tese central do trabalho: “O novo desenvolvimentismo não se parece nada com o nacional-desenvolvimentismo”, disse, em sua mensagem.

“Um trabalho de combate”

Único professor da Unicamp na banca, João Manoel Cardoso de Mello elogiou o “aluno” Mercadante e aprovou o viés político da tese. “Não vejo nenhum problema em ser um trabalho de combate”, disse, defendendo-o das ironias de Delfim Netto.
“O trabalho se equilibra bem entre a apologia do governo e o diálogo imaginário dos opositores”, disse. “Fernando Henrique se achava o Juscelino (Kubitscheck), mas se revelou um (Eurico Gaspar) Dutra”, afirmou, sendo aplaudido pela plateia.
João Manoel também mencionou as “barbeiragens terríveis da política monetária” do governo Lula, não tratadas na tese. Criticou o tamanho do trabalho e lamentou que Mercadante não tenha feito uma reflexão sobre o futuro. “Acho que faltou olhar para frente”, disse.
Na plateia, muitos estudantes acompanharam o debate de pé ou sentados no chão. Convidados a assistir no espaço anexo, pelo telão, não se moveram. “É igual ver jogo da Copa. Você prefere ver ao vivo ou pela tevê?”, perguntou o estudante Diego Santiago Lopez. Diante do espanto de seus colegas, rapidamente se corrigiu: “Quer dizer, jogo de Copa é muito melhor que defesa de tese”. Verdade inquestionável.

domingo, 28 de novembro de 2010

A violência no Rio de Janeiro

A explosão da violência no Rio de Janeiro tem causado um forte sentimento de desespero e comoção nacional. Devido à gravidade dos acontecimentos e influenciados por parte da mídia brasileira – mais preocupada com os altos índices de audiência do que com a solução do problema, poucos conseguem fazer uma leitura lúcida dos fatos.

Luiz Eduardo Soares, ex-Secretário de Segurança do Rio de Janeiro e ex-Secretário Nacional de Segurança Pública produziu uma reflexão que nos ajuda a alargar a visão sobre acontecimentos tão complicados.

Trata-se de uma reflexão coerente e indispensável para aqueles que estão dispostos a entender o tema de maneira crítica.

Boa leitura, Rogério de Souza.

A crise no Rio e o pastiche midiático

Luiz Eduardo Soares

Sempre mantive com jornalistas uma relação de respeito e cooperação. Em alguns casos, o contato profissional evoluiu para amizade. Quando as divergências são muitas e profundas, procuro compreender e buscar bases de um consenso mínimo, para que o diálogo não se inviabilize. Faço-o por ética –supondo que ninguém seja dono da verdade, muito menos eu--, na esperança de que o mesmo procedimento seja adotado pelo interlocutor. Além disso, me esforço por atender aos que me procuram, porque sei que atuam sob pressão, exaustivamente, premidos pelo tempo e por pautas urgentes. A pressa se intensifica nas crises, por motivos óbvios. Costumo dizer que só nós, da segurança pública (em meu caso, quando ocupava posições na área da gestão pública da segurança), os médicos e o pessoal da Defesa Civil, trabalhamos tanto –ou sob tanta pressão-- quanto os jornalistas.
Digo isso para explicar por que, na crise atual, tenho recusado convites para falar e colaborar com a mídia:
(1) Recebi muitos telefonemas, recados e mensagens. As chamadas são contínuas, a tal ponto que não me restou alternativa a desligar o celular. Ao todo, nesses dias, foram mais de cem pedidos de entrevistas ou declarações. Nem que eu contasse com uma equipe de secretários, teria como responder a todos e muito menos como atendê-los. Por isso, aproveito a oportunidade para desculpar-me. Creiam, não se trata de descortesia ou desapreço pelos repórteres, produtores ou entrevistadores que me procuraram.
(2) Além disso, não tenho informações de bastidor que mereçam divulgação. Por outro lado, não faria sentido jogar pelo ralo a credibilidade que construí ao longo da vida. E isso poderia acontecer se eu aceitasse aparecer na TV, no rádio ou nos jornais, glosando os discursos oficiais que estão sendo difundidos, declamando platitudes, reproduzindo o senso comum pleno de preconceitos, ou divagando em torno de especulações. A situação é muito grave e não admite leviandades. Portanto, só faria sentido falar se fosse para contribuir de modo eficaz para o entendimento mais amplo e profundo da realidade que vivemos. Como fazê-lo em alguns parcos minutos, entrecortados por intervenções de locutores e debatedores? Como fazê-lo no contexto em que todo pensamento analítico é editado, truncado, espremido –em uma palavra, banido--, para que reinem, incontrastáveis, a exaltação passional das emergências, as imagens espetaculares, os dramas individuais e a retórica paradoxalmente triunfalista do discurso oficial?
(3) Por fim, não posso mais compactuar com o ciclo sempre repetido na mídia: atenção à segurança nas crises agudas e nenhum investimento reflexivo e informativo realmente denso e consistente, na entressafra, isto é, nos intervalos entre as crises. Na crise, as perguntas recorrentes são: (a) O que fazer, já, imediatamente, para sustar a explosão de violência? (b) O que a polícia deveria fazer para vencer, definitivamente, o tráfico de drogas? (c) Por que o governo não chama o Exército? (d) A imagem internacional do Rio foi maculada? (e) Conseguiremos realizar com êxito a Copa e as Olimpíadas?
Ao longo dos últimos 25 anos, pelo menos, me tornei “as aspas” que ajudaram a legitimar inúmeras reportagens. No tópico, “especialistas”, lá estava eu, tentando, com alguns colegas, furar o bloqueio à afirmação de uma perspectiva um pouquinho menos trivial e imediatista. Muitas dessas reportagens, por sua excelente qualidade, prescindiriam de minhas aspas –nesses casos, reduzi-me a recurso ocioso, mera formalidade das regras jornalísticas. Outras, nem com todas as aspas do mundo se sustentariam. Pois bem, acho que já fui ou proporcionei aspas o suficiente. Esse código jornalístico, com as exceções de praxe, não funciona, quando o tema tratado é complexo, pouco conhecido e, por sua natureza, rebelde ao modelo de explicação corrente. Modelo que não nasceu na mídia, mas que orienta as visões aí predominantes. Particularmente, não gostaria de continuar a ser cúmplice involuntário de sua contínua reprodução.
Eis por que as perguntas mencionadas são expressivas do pobre modelo explicativo corrente e por que devem ser consideradas obstáculos ao conhecimento e réplicas de hábitos mentais refratários às mudanças inadiáveis. Respondo sem a elegância que a presença de um entrevistador exigiria. Serei, por assim dizer, curto e grosso, aproveitando-me do expediente discursivo aqui adotado, em que sou eu mesmo o formulador das questões a desconstruir. Eis as respostas, na sequência das perguntas, que repito para facilitar a leitura:
(a) O que fazer, já, imediatamente, para sustar a violência e resolver o desafio da insegurança?
Nada que se possa fazer já, imediatamente, resolverá a insegurança. Quando se está na crise, usam-se os instrumentos disponíveis e os procedimentos conhecidos para conter os sintomas e salvar o paciente. Se desejamos, de fato, resolver algum problema grave, não é possível continuar a tratar o paciente apenas quando ele já está na UTI, tomado por uma enfermidade letal, apresentando um quadro agudo. Nessa hora, parte-se para medidas extremas, de desespero, mobilizando-se o canivete e o açougueiro, sem anestesia e assepsia. Nessa hora, o cardiologista abre o tórax do moribundo na maca, no corredor. Não há como construir um novo hospital, decente, eficiente, nem para formar especialistas, nem para prevenir epidemias, nem para adotar procedimentos que evitem o agravamento da patologia. Por isso, o primeiro passo para evitar que a situação se repita é trocar a pergunta. O foco capaz de ajudar a mudar a realidade é aquele apontado por outra pergunta: o que fazer para aperfeiçoar a segurança pública, no Rio e no Brasil, evitando a violência de todos os dias, assim como sua intensificação, expressa nas sucessivas crises?
Se o entrevistador imaginário interpelar o respondente, afirmando que a sociedade exige uma resposta imediata, precisa de uma ação emergencial e não aceita nenhuma abordagem que não produza efeitos práticos imediatos, a melhor resposta seria: caro amigo, sua atitude representa, exatamente, a postura que tem impedido avanços consistentes na segurança pública. Se a sociedade, a mídia e os governos continuarem se recusando a pensar e abordar o problema em profundidade e extensão, como um fenômeno multidimensional a requerer enfrentamento sistêmico, ou seja, se prosseguirmos nos recusando, enquanto Nação, a tratar do problema na perspectiva do médio e do longo prazos, nos condenaremos às crises, cada vez mais dramáticas, para as quais não há soluções mágicas.
A melhor resposta à emergência é começar a se movimentar na direção da reconstrução das condições geradoras da situação emergencial. Quanto ao imediato, não há espaço para nada senão o disponível, acessível, conhecido, que se aplica com maior ou menor destreza, reduzindo-se danos e prolongando-se a vida em risco.
A pergunta é obtusa e obscurantista, cúmplice da ignorância e da apatia.
(b) O que as polícias fluminenses deveriam fazer para vencer, definitivamente, o tráfico de drogas?
Em primeiro lugar, deveriam parar de traficar e de associar-se aos traficantes, nos “arregos” celebrados por suas bandas podres, à luz do dia, diante de todos. Deveriam parar de negociar armas com traficantes, o que as bandas podres fazem, sistematicamente. Deveriam também parar de reproduzir o pior do tráfico, dominando, sob a forma de máfias ou milícias, territórios e populações pela força das armas, visando rendimentos criminosos obtidos por meios cruéis.
Ou seja, a polaridade referida na pergunta (polícias versus tráfico) esconde o verdadeiro problema: não existe a polaridade. Construí-la –isto é, separar bandido e polícia; distinguir crime e polícia-- teria de ser a meta mais importante e urgente de qualquer política de segurança digna desse nome. Não há nenhuma modalidade importante de ação criminal no Rio de que segmentos policiais corruptos estejam ausentes. E só por isso que ainda existe tráfico armado, assim como as milícias.
Não digo isso para ofender os policiais ou as instituições. Não generalizo. Pelo contrário, sei que há dezenas de milhares de policiais honrados e honestos, que arriscam, estóica e heroicamente, suas vidas por salários indignos. Considero-os as primeiras vítimas da degradação institucional em curso, porque os envergonha, os humilha, os ameaça e acua o convívio inevitável com milhares de colegas corrompidos, envolvidos na criminalidade, sócios ou mesmo empreendedores do crime.
Não nos iludamos: o tráfico, no modelo que se firmou no Rio, é uma realidade em franco declínio e tende a se eclipsar, derrotado por sua irracionalidade econômica e sua incompatibilidade com as dinâmicas políticas e sociais predominantes, em nosso horizonte histórico. Incapaz, inclusive, de competir com as milícias, cuja competência está na disposição de não se prender, exclusivamente, a um único nicho de mercado, comercializando apenas drogas –mas as incluindo em sua carteira de negócios, quando conveniente. O modelo do tráfico armado, sustentado em domínio territorial, é atrasado, pesado, anti-econômico: custa muito caro manter um exército, recrutar neófitos, armá-los (nada disso é necessário às milícias, posto que seus membros são policiais), mantê-los unidos e disciplinados, enfrentando revezes de todo tipo e ataques por todos os lados, vendo-se forçados a dividir ganhos com a banda podre da polícia (que atua nas milícias) e, eventualmente, com os líderes e aliados da facção. É excessivamente custoso impor-se sobre um território e uma população, sobretudo na medida que os jovens mais vulneráveis ao recrutamento comecem a vislumbrar e encontrar alternativas. Não só o velho modelo é caro, como pode ser substituído com vantagens por outro muito mais rentável e menos arriscado, adotado nos países democráticos mais avançados: a venda por delivery ou em dinâmica varejista nômade, clandestina, discreta, desarmada e pacífica. Em outras palavras, é melhor, mais fácil e lucrativo praticar o negócio das drogas ilícitas como se fosse contrabando ou pirataria do que fazer a guerra. Convenhamos, também é muito menos danoso para a sociedade, por óbvio.
(c) O Exército deveria participar?
Fazendo o trabalho policial, não, pois não existe para isso, não é treinado para isso, nem está equipado para isso. Mas deve, sim, participar. A começar cumprindo sua função de controlar os fluxos das armas no país. Isso resolveria o maior dos problemas: as armas ilegais passando, tranquilamente, de mão em mão, com as benções, a mediação e o estímulo da banda podre das polícias.
E não só o Exército. Também a Marinha, formando uma Guarda Costeira com foco no controle de armas transportadas como cargas clandestinas ou despejadas na baía e nos portos. Assim como a Aeronáutica, identificando e destruindo pistas de pouso clandestinas, controlando o espaço aéreo e apoiando a PF na fiscalização das cargas nos aeroportos.
(d) A imagem internacional do Rio foi maculada?
Claro. Mais uma vez.
(e) Conseguiremos realizar com êxito a Copa e as Olimpíadas?
Sem dúvida. Somos ótimos em eventos. Nesses momentos, aparece dinheiro, surge o “espírito cooperativo”, ações racionais e planejadas impõem-se. Nosso calcanhar de Aquiles é a rotina. Copa e Olimpíadas serão um sucesso. O problema é o dia a dia.

Palavras Finais

Traficantes se rebelam e a cidade vai à lona. Encena-se um drama sangrento, mas ultrapassado. O canto de cisne do tráfico era esperado. Haverá outros momentos análogos, no futuro, mas a tendência declinante é inarredável. E não porque existem as UPPs, mas porque correspondem a um modelo insustentável, economicamente, assim como social e politicamente. As UPPs, vale dizer mais uma vez, são um ótimo programa, que reedita com mais apoio político e fôlego administrativo o programa “Mutirões pela Paz”, que implantei com uma equipe em 1999, e que acabou soterrado pela política com “p” minúsculo, quando fui exonerado, em 2000, ainda que tenha sido ressuscitado, graças à liderança e à competência raras do ten.cel. Carballo Blanco, com o título GPAE, como reação à derrocada que se seguiu à minha saída do governo. A despeito de suas virtudes, valorizadas pela presença de Ricardo Henriques na secretaria estadual de assistência social --um dos melhores gestores do país--, elas não terão futuro se as polícias não forem profundamente transformadas. Afinal, para tornarem-se política pública terão de incluir duas qualidades indispensáveis: escala e sustentatibilidade, ou seja, terão de ser assumidas, na esfera da segurança, pela PM. Contudo, entregar as UPPs à condução da PM seria condená-las à liquidação, dada a degradação institucional já referida.
O tráfico que ora perde poder e capacidade de reprodução só se impôs, no Rio, no modelo territorializado e sedentário em que se estabeleceu, porque sempre contou com a sociedade da polícia, vale reiterar. Quando o tráfico de drogas no modelo territorializado atinge seu ponto histórico de inflexão e começa, gradualmente, a bater em retirada, seus sócios –as bandas podres das polícias-- prosseguem fortes, firmes, empreendedores, politicamente ambiciosos, economicamente vorazes, prontos a fixar as bandeiras milicianas de sua hegemonia.
Discutindo a crise, a mídia reproduz o mito da polaridade polícia versus tráfico, perdendo o foco, ignorando o decisivo: como, quem, em que termos e por que meios se fará a reforma radical das polícias, no Rio, para que estas deixem de ser incubadoras de milícias, máfias, tráfico de armas e drogas, crime violento, brutalidade, corrupção? Como se refundarão as instituições policiais para que os bons profissionais sejam, afinal, valorizados e qualificados? Como serão transformadas as polícias, para que deixem de ser reativas, ingovernáveis, ineficientes na prevenção e na investigação?
As polícias são instituições absolutamente fundamentais para o Estado democrático de direito. Cumpre-lhes garantir, na prática, os direitos e as liberdades estipulados na Constituição. Sobretudo, cumpre-lhes proteger a vida e a estabilidade das expectativas positivas relativamente à sociabilidade cooperativa e à vigência da legalidade e da justiça. A despeito de sua importância, essas instituições não foram alcançadas em profundidade pelo processo de transição democrática, nem se modernizaram, adaptando-se às exigências da complexa sociedade brasileira contemporânea. O modelo policial foi herdado da ditadura. Ele servia à defesa do Estado autoritário e era funcional ao contexto marcado pelo arbítrio. Não serve à defesa da cidadania. A estrutura organizacional de ambas as polícias impede a gestão racional e a integração, tornando o controle impraticável e a avaliação, seguida por um monitoramento corretivo, inviável. Ineptas para identificar erros, as polícias condenam-se a repeti-los. Elas são rígidas onde teriam de ser plásticas, flexíveis e descentralizadas; e são frouxas e anárquicas, onde deveriam ser rigorosas. Cada uma delas, a PM e a Polícia Civil, são duas instituições: oficiais e não-oficiais; delegados e não-delegados.
E nesse quadro, a PEC-300 é varrida do mapa no Congresso pelos governadores, que pagam aos policiais salários insuficientes, empurrando-os ao segundo emprego na segurança privada informal e ilegal.
Uma das fontes da degradação institucional das polícias é o que denomino "gato orçamentário", esse casamento perverso entre o Estado e a ilegalidade: para evitar o colapso do orçamento público na área de segurança, as autoridades toleram o bico dos policiais em segurança privada. Ao fazê-lo, deixam de fiscalizar dinâmicas benignas (em termos, pois sempre há graves problemas daí decorrentes), nas quais policiais honestos apenas buscam sobreviver dignamente, apesar da ilegalidade de seu segundo emprego, mas também dinâmicas malignas: aquelas em que policiais corruptos provocam a insegurança para vender segurança; unem-se como pistoleiros a soldo em grupos de extermínio; e, no limite, organizam-se como máfias ou milícias, dominando pelo terror populações e territórios. Ou se resolve esse gargalo (pagando o suficiente e fiscalizando a segurança privada /banindo a informal e ilegal; ou legalizando e disciplinando, e fiscalizando o bico), ou não faz sentido buscar aprimorar as polícias.
O Jornal Nacional, nesta quinta, 25 de novembro, definiu o caos no Rio de Janeiro, salpicado de cenas de guerra e morte, pânico e desespero, como um dia histórico de vitória: o dia em que as polícias ocuparam a Vila Cruzeiro. Ou eu sofri um súbito apagão mental e me tornei um idiota contumaz e incorrigível ou os editores do JN sentiram-se autorizados a tratar milhões de telespectadores como contumazes e incorrigíveis idiotas.
Ou se começa a falar sério e levar a sério a tragédia da insegurança pública no Brasil, ou será pelo menos mais digno furtar-se a fazer coro à farsa.

Disponível em: http://luizeduardosoares.blogspot.com/2010/11/crise-no-rio-e-o-pastiche-midiatico.html. Acesso em 27/11/2010.

terça-feira, 23 de novembro de 2010

Informações úteis não divulgadas!

1. Quem quiser tirar uma cópia da certidão de nascimento, ou de casamento, não precisa mais ir até um cartório, pegar senha e esperar um tempão na fila.
O cartório eletrônico, já está no ar! www.cartorio24horas.com.br

Nele você resolve essas (e outras) burocracias, 24 horas por dia, on-line. Cópias de certidões de óbitos, imóveis, e protestos também podem ser solicitados pela internet.
Para pagar é preciso imprimir um boleto bancário. Depois, o documento chega por Sedex.

Passe para todo mundo, que este é um serviço da maior importância.

2. DIVULGUE. É IMPORTANTE: AUXÍLIO À LISTA
Telefone 102... não!
Agora é: 08002800102
Vejam só como não somos avisados das coisas que realmente são
importantes...
NA CONSULTA AO 102, PAGAMOS R$ 1,20 PELO SERVIÇO.
SÓ QUE A TELEFÔNICA NÃO AVISA QUE EXISTE UM SERVIÇO
VERDADEIRAMENTE GRATUITO.
Não custa divulgar para mais gente ficar sabendo.

3. Importante: Documentos roubados - BO (boletim de occorrência) dá gratuidade - Lei 3.051/98 - VOCÊ SABIA???

Acho que grande parte da população não sabe, é que a Lei 3.051/98 que nos dá o direito de em caso de roubo ou furto (mediante a apresentação do Boletim de Ocorrência), gratuidade na emissão da 2ª via de tais documentos como:
Habilitação (R$ 42,97);
Identidade (R$ 32,65);
Licenciamento Anual de Veículo (R$ 34,11).

Para conseguir a gratuidade, basta levar uma cópia (não precisa ser autenticada) do Boletim de Ocorrência e o original ao Detran p/ Habilitação e Licenciamento e outra cópia à um posto do IFP...

4) MULTA DE TRANSITO: essa você não sabia

No caso de multa por infração leve ou média, se você não foi multado pelo mesmo motivo nos últimos 12 meses, não precisa pagar multa. É só ir ao DETRAN e pedir o formulário para converter a infração em advertência com base no Art. 267 do CTB. Levar Xerox da carteira de motorista e a notificação da multa. Em 30 dias você recebe pelo correio a advertência por escrito. Perde os pontos, mas não paga nada.

Código de Trânsito Brasileiro
Art. 267 - Poderá ser imposta a penalidade de advertência por escrito à infração de natureza leve ou média, passível de ser punida com multa, não sendo reincidente o infrator, na mesma infração, nos últimos doze meses, quando a autoridade, considerando o prontuário do infrator, entender esta providência como mais educativa.

quarta-feira, 17 de novembro de 2010

Um novo Doutor



Parabéns Marcos Alan pela defesa de Tese de Doutorado. Fiquei muito satisfeito em acompanhar e verificar o seu amadurecimento acadêmico e intelectual.
Assistindo a sua defesa, lembrei das discussões que o nosso grupo de estudo (com o Pablo Augusto e o Fábio Romano) fazia entorno dos clássicos do pensamento sociológico no segundo semestre de 1999.

Parabéns por esta vitória!

UNESP: 1ª Fase

A primeira fase da prova de Ciências Humanas e suas Tecnologias da Unesp (realizada pela Vunesp) não foi difícil. Seguindo certa tradição dos vestibulares para ingresso na referida Universidade, mesclou questões de conhecimentos gerais com algumas questões mais específicas.
A única baixa foi na parte de Filosofia: não cobrou o conhecimento em si desenvolvido no Ensino Médio, desembocando para a interpretação de textos jornalísticos e de filósofos.
A impressão que fica é que a disciplina de Filosofia não encontrou o seu lugar nos vestibulares. Uma pena!

55) A felicidade, para você, pode ser uma vida casta; para outro, pode ser um casamento monogâmico; para outro ainda, pode ser uma orgia promíscua. Há os que querem simplicidade e os que preferem o luxo. Em matéria de felicidade, os governos podem oferecer as melhores condições possíveis para que cada indivíduo persiga seu projeto. Mas o melhor governo é o que não prefere nenhuma das diferentes felicidades que seus sujeitos procuram. Não é coisa simples. Nosso governo oferece uma isenção fiscal às igrejas, as quais, certamente, são cruciais na procura da felicidade de muitos. Mas as escolas de dança de salão ou os clubes sadomasoquistas também são significativos na busca da felicidade de vários cidadãos. Será que um governo deve favorecer a ideia de felicidade compartilhada pela maioria? Considere: os governos totalitários (laicos ou religiosos) sempre “sabem” qual é a felicidade “certa” para seus sujeitos. Juram que querem o bem dos cidadãos e garantem a felicidade como um direito social – claro, é a mesma felicidade para todos. É isso que você quer?
(Contardo Calligaris. Folha de S.Paulo, 10.06.2010. Adaptado.)

Sobre esse texto, é correto afirmar que:

(A) Ao discorrer sobre a felicidade, o autor elege como foco a autonomia do indivíduo.
(B) A felicidade é assunto público e por isso pode e deve ser orientada por critérios objetivos definidos pelo Estado.
(C) O critério moral e religioso é o mais adequado para reger o comportamento dos indivíduos.
(D) O bem-estar e a felicidade pessoal não devem ser assuntos restritos ao livre arbítrio individual.
(E) Para o autor, a busca da felicidade não deve se subordinar ao relativismo das escolhas.

56) A inclinação para o ocultismo é um sintoma da regressão da consciência. A tendência velada da sociedade para o desastre faz de tolas suas vítimas com falsas revelações e fenômenos alucinatórios. O ocultismo é a metafísica dos parvos. Procurando no além o que perderam, as pessoas dão de encontro apenas com sua própria nulidade.
(Theodor Adorno, filósofo alemão, 1947. Adaptado.)

Ilumine seus caminhos e encontre a paz espiritual com Dona Márcia, espírita conceituada com fortes poderes. Corta mau-olhado, inveja, demandas, feitiçaria. Desfaz amarrações, faz simpatia para o amor, saúde, negócios, empregos, impotência e filhos problemáticos. Seja qual for o seu problema, em uma consulta, ela lhe dará orientação espiritual para resolver o seu problema.
(Panfleto distribuído nas ruas do centro de uma cidade brasileira.)

Assinale a alternativa correta.

(A) Os dois textos evidenciam que, em nossa sociedade, prevalece o apelo racional na resolução de problemas pessoais.
(B) O texto do filósofo Adorno aborda o ocultismo sob uma perspectiva crítica.
(C) De acordo com o filósofo Adorno, a espiritualidade permite a elevação da consciência.
(D) Nos dois textos predomina a irracionalidade na abordagem da relação entre mundo material e mundo espiritual.
(E) Os dois textos enfatizam a importância da espiritualidade na vida das pessoas.

57) Renata, 11, combinava com uma amiga viajar em julho para a Disney. Questionada pela mãe, que não sabia de excursão nenhuma, a menina pegou uma pasta com preços do pacote turístico e uma foto com os dizeres: “Se eu não for para a Disney vou ser um pateta”. A agência de turismo e a escola afirmam que não pretendiam constranger ninguém e que a placa do Pateta era apenas uma brincadeira. Para um promotor da área do consumidor, o caso ilustra bem os abusos na publicidade infantil. “Já temos problemas sérios de bullying nas escolas. Essa empresa está criando uma situação propícia para isso”.
(Folha de S.Paulo, 20.04.2010. Adaptado.)

Acerca dessa notícia, podemos afirmar que:

(A) Em nossa sociedade, os campos da publicidade e da pedagogia são esferas separadas, não suscitando questões de natureza ética.
(B) Para o promotor citado na reportagem, o caso em questão provoca problemas de natureza exclusivamente jurídica.
(C) Uma das questões éticas envolvidas diz respeito à exposição precoce das crianças à manipulação do desejo, exercida pela publicidade.
(D) O público-alvo dessa campanha publicitária constitui-se de indivíduos dotados de consciência autônoma.
(E) Para o promotor citado na reportagem, o caso em questão não apresenta repercussões de natureza psicológica.

58) Coisas que este livro fará por você: facilitar-lhe-á fazer amigos rápida e facilmente; aumentará sua popularidade; ajuda-lo-á a conquistar pessoas para seu modo de pensar; aumentará sua influência, seu prestígio, sua habilidade em obter a realização das coisas; facilitar-lhe-á conseguir novos clientes, novos fregueses; aumentará suas rendas; torna-lo-á um melhor vendedor, um melhor diretor; ajudá-lo-á a resolver reclamações, evitar discussões e manter seus contatos humanos agradáveis e suaves; torna-lo-á um melhor orador, um conversador mais atraente; tornará os princípios de psicologia fáceis para que você os aplique nos seus contatos diários.
(Dale Carnegie. Como fazer amigos e influenciar pessoas, 1936.)

Se alguma coisa há que esta vida tem para nós, e, salvo a mesma vida, tenhamos que agradecer aos Deuses, é o dom de nos desconhecermos: de nos desconhecermos a nós mesmos e de nos desconhecermos uns aos outros. A alma humana é um abismo obscuro e viscoso, um poço que não se usa na superfície do mundo. Ninguém se amaria a si mesmo se deveras se conhecesse, e assim, não havendo a vaidade, que é o sangue da vida espiritual, morreríamos na alma de anemia. Ninguém conhece outro, e ainda bem que o não conhece, e, se o conhecesse, conheceria nele, ainda que mãe, mulher ou filho, o íntimo, metafísico inimigo.
(Fernando Pessoa. Livro do desassossego, 1931.)

Sobre os dois textos, é correto afirmar:

(A) A obra de Dale Carnegie transmite nítida visão instrumental acerca das relações humanas.
(B) Os dois textos transmitem uma visão cética sobre a importância da psicologia para o desenvolvimento humano.
(C) Embora escritos na década de 30 do século passado, ambos os textos podem ser considerados precursores do estilo atualmente conhecido como autoajuda.
(D) O texto de Fernando Pessoa transmite uma visão edificante acerca das relações humanas.
(E) Os dois textos valorizam a importância da inteligência emocional nas relações humanas.

59) A criação de índices de sustentabilidade nas principais bolsas de valores do mundo reflete a valorização das companhias verdes. Quando o mercado de capitais, centro financiador do desenvolvimento econômico, cria um índice, dá um recado explícito às empresas que ele procura. Nesse caso, o mercado deixa claro que a agenda socioambiental não pode ser ignorada pelas empresas que ele procura. Na Bolsa de Valores de São Paulo, o índice de sustentabilidade (ISE), criado há cinco anos, mostra resultados melhores do que o índice tradicional. No ano passado, as ações medidas pelo índice Ibovespa subiram 18,5%, enquanto as medidas pelo ISE da Bovespa aumentaram 24,7%.
(Veja, 09.06.2010. Adaptado.)

Assinale a alternativa correta.

(A) A reportagem citada tem como assunto a recusa, por parte dos investidores do mercado de capitais, da lógica neoliberal que atualmente rege a economia capitalista.
(B) A questão ambiental é assunto restrito à esfera política, não podendo ser regida pelos critérios da lei da oferta e da procura.
(C) Os dados citados na reportagem reforçam a tese originalmente marxista acerca da lógica autodestrutiva da economia capitalista.
(D) A reportagem trata da incompatibilidade entre equilíbrio ambiental e a célebre “mão invisível” do mercado, postulada pelo filósofo Adam Smith.
(E) A reportagem divulga a tese de que um problema originalmente ético pode ser resolvido pela lógica do mercado capitalista.

60)

Texto 1

No ano de 1990, o filósofo francês Gilles Deleuze criou o conceito de “sociedade do controle” para explicar a configuração totalitária das sociedades atuais. Na sociedade de controle as pessoas têm a ilusão de desfrutarem de maior autonomia, pois podem, por exemplo, acessar contas correntes e fazer compras pela Internet. Mas, por outro lado, seus comportamentos e hábitos de consumo podem ser conhecidos pelo governo, pelos bancos e grandes empresas. Sem suspeitarem disso, os indivíduos podem ser controlados à distância, como se cada um fosse dotado de uma “coleira eletrônica”.

Texto 2

Um quarto dos alemães aceitam implantar chip no corpo Pesquisa feita pela Associação Alemã das Empresas de Informação, Telecomunicação e Novas Mídias (Bitkom) revela
que 23% dos moradores do país topam ter um microchip inserido no próprio corpo, contanto que isso traga benefícios concretos a eles. O levantamento, realizado com cerca de mil pessoas de várias cidades, foi divulgado na feira de tecnologia Cebit, que vai até o próximo sábado (7), em Hannover.
(Folha Online, 03.03.2010.)

Com base no conceito de sociedade do controle e na notícia reproduzida, assinale a alternativa correta.

(A) Não há correspondência entre os resultados da pesquisa relatada na notícia e o conceito de sociedade do controle, uma vez que a implantação do chip contaria com a permissão das próprias pessoas.
(B) Os resultados da pesquisa atestam a inadequação do conceito proposto pelo filósofo francês para reflexões sobre as sociedades atuais, pois o conceito está defasado vinte anos em relação à notícia sobre a pesquisa.
(C) Os resultados da pesquisa atestam o grau em que os parâmetros da sociedade de controle foram internalizados pelos indivíduos.
(D) De acordo com o filósofo francês, os acessos informatizados garantem o aumento da autonomia dos indivíduos.
(E) O conceito de sociedade de controle tem sua aplicação restrita a sociedades governadas por ditaduras, não podendo ser aplicado a reflexões sobre sociedades democráticas.

Música: Norah Jones

No último domingo, a cantora de jazz Norah Jones fez um show gratuito na cidade de São Paulo (Parque da Independência), reunindo mais de 25 mil pessoas.
Conversando com algumas pessoas, fiquei admirado com a determinação de muitos fãs que vieram de diferentes Estados para assistir o show. Encontrei pessoas do Rio Grande do Sul, Paraná e Minas Gerais. Isso mostra, mais uma vez, que o jazz tem um público significativo no Brasil.
A única observação negativa foi sobre a organização da fila para entrar no espaço. A pouca cultura cívica e o jeitinho brasileiro tumultuaram a entrada. Mas isso não tirou o brilhantismo do espetáculo.
Para aqueles que não tiveram oportunidade de assistir o show, no you tube tem vários vídeos da cantora.


quarta-feira, 10 de novembro de 2010

Comissão do Senado aprova incluir 'busca da felicidade' na Constituição

Projeto segue agora para análise dos senadores no plenário da Casa.
Pela proposta, direitos sociais serão 'essenciais para a busca da felicidade'.
por Eduardo Bresciani


CCJ chama Meirelles e presidente da CEF para falar sobre Panamericano A Comissão de Constituição e Justiça (CCJ) do Senado aprovou nesta quarta-feira (10) uma Proposta de Emenda à Constituição (PEC) que inclui o termo “busca da felicidade” na Constituição Federal. O projeto segue agora para o plenário da Casa, onde precisa ser votado duas vezes antes de ir para a Câmara.

Pela proposta, os direitos sociais como educação, saúde, alimentação, trabalho, moradia, entre outros passam a ser “essenciais para a busca da felicidade”.

O autor do projeto, Cristovam Buarque (PDT-DF), argumenta na justificativa que a intenção é prever na Constituição que o cidadão tem o direito de buscar a felicidade e que o estado tem de prover os direitos sociais para prover isso. Ele destaca que a “busca da felicidade” pressupõe a felicidade coletiva.

“Evidentemente, as alterações não buscam autorizar um indivíduo a requerer do Estado ou de um particular uma providência egoística a pretexto de atender à sua felicidade. Este tipo de patologia não é alcançado pelo que aqui se propõe, o que seja, repita-se, a inclusão da felicidade como objetivo do Estado e direito de todos”, argumenta Buarque.

Fonte: G1 (10/11/2010)

Instituto Federal de São Paulo abre inscrições para vestibular 2011

São oferecidas mais seis mil vagas para cursos técnicos e superiores.
Prova vai ser realizada no dia 19 de dezembro.


O Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia de São Paulo abriu inscrições para o processo seletivo para cursos técnicos e superiores. As inscrições foram abertas no dia 5 e vão até as 15h (horário de Brasília) do dia 19 de novembro e devem ser feitas pelo site www.vestibularifsp.com.br.

Para o ensino superior a taxa é no valor de R$ 50; para curso técnico concomitante ou subsequente e técnico subsequente de educação a distância o valor é de R$ 20; e para o curso técnico integrado ao ensino médio o valor é de R$ 35.

São oferecidas 1800 vagas de ensino superior de tecnologia, licenciatura, bacharelado em todo o estado divididas em: 40 vagas no campus Araraquara; 40 no campus Birigui; 160 no campus Bragança Paulista; 120 no campus Caraguatatuba; 120 no campus Cubatão; 120 no campus Guarulhos; 40 em Itapetininga; 80 no campus Salto; 80 vagas no campus São Carlos; 80 no campus São João da Boa Vista; 600 vagas para capital paulista; 80 vagas no campus São Roque; 160 no campus Sertãozinho; e 80 no campus Matão.

Para o ensino médio são disponibilizadas vagas nas modalidades integrada ao ensino médio, concomitante ou subseqüente e educação a distância (EaD).

São 200 vagas para o campus Araraquara; 80 para o campus Avaré; 200 para campus Barretos; 160 no campus Birigui; 200 no campus Bragança Paulista; 160 no campus Campos do Jordão; 160 no campus Caraguatatuba; 160 no campus Catanduva; 200 no campus Cubatão; 120 no campus Guarulhos; 80 no campus Hortolândia; 160 no campus Itapetininga; 160 no campus Piracicaba; 160 no campus Presidente Epitácio; 160 no campus Salto; 120 no campus Avançado Boituva; 80 no campus Salto - campus avançado Capivari; 40 no campus São Carlos; 80 no campus São João da Boa Vista; 440 no campus São Paulo; 80 no campus São Roque; 80 no campus Sertãozinho; 200 no campus Suzano; e 160 no campus Votuporanga.

O Instituto também oferece 100 vagas em cada um dos seguintes polos do Instituto:
Araraquara, Barretos, Franca, Guairá, Itapevi, Jaboticabal e São João da Boa Vista. Mais informações sobre vagas e cursos estão disponíveis no edital.

A prova vai ser realizada no dia 19 de dezembro, às 13h (horário de Brasília), com duração de cinco horas. Para saber o local da prova, o candidato deve acessar o site do Instituto, ou comparecer no campus em que pretende estudar, a partir do dia 13 de dezembro.

Isenção de taxa
Para solicitar a isenção, o candidato deverá preencher integralmente a ficha de inscrição de 05 a 19 de novembro de 2010 até às 15h (horário de Brasília).

SiSU
Quem optar pelo SiSU deve se inscrever nas datas e em endereço eletrônico a serem informados pelo Ministério da Educação – MEC.

Mais informações no site www.vestibularifsp.com.br ou pelos telefones (11) 3471-6125(Capital e Grande São Paulo) ou 0800-7227225 (demais localidades).

Fonte: G1 (10/11/2010)

Relatório da Unesco aponta Brasil como 13º maior produtor de ciência

Publicação dedica capítulo inteiro para analisar pesquisa no país.
Classificação é baseada no número de artigos científicos publicados.


O Brasil é o 13º maior produtor de ciência do mundo, segundo dados de um relatório da Unesco. A classificação leva em conta o número de artigos científicos publicados por cada país, sendo que o Brasil chegou, em 2008, a 26.482. Na contagem mundial, a participação brasileira no total de estudos foi de 0,8% em 1992 para 2,7% em 2008. O documento pode ser consultado na íntegra aqui (PDF, em inglês).

Para o órgão da ONU, a estabilidade econômica do país entre 2002 e 2008 e o aumento no número de doutores - de 554, em 1981, para 10.711, em 2008 - foram os principais motivos para a melhora no desempenho brasileiro no setor científico.

Entre 2000 e 2008, o gasto do governo brasileiro com pesquisa e desenvolvimento subiu 28%, passando de R$ 25,5 bilhões para R$ 32,8 bilhões. Mesmo assim, a expansão da ciência brasileira não acompanhou o ritmo da economia, já que a razão entre o gasto com pesquisa e o PIB brasileiro, no mesmo intervalo, foi de 1.02% para 1.09%.

A maior parte das pesquisas são realizadas por instituições acadêmicas. As universidades também detêm a maior parte dos pesquisadores (57%) como empregados. Outros 6% estão em institutos de pesquisa. O restante (37%) está ligado ao setor empresarial. O dado se reflete no baixo número de patentes obtidas pelo país, somente 103 em 2009. Quatro anos antes, por exemplo, foram 106 patentes úteis aprovadas.

A penetração pequena de cientistas nas empresas e indústrias é um dos problemas apontados pelo relatório no Brasil. Outros desafios são tornar as melhores universidades brasileiras em centros de referência mundiais e expandir a capacidade de fazer ciência de ponta a cidades fora do eixo São Paulo-Rio de Janeiro, especialmente na Amazônia e no Nordeste.

Sete universidades são citadas como as principais do país, segundo o documento, contando com 60% de todos os artigos científicos brasileiros publicados em 2009: Universidade de São Paulo (USP), Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), Universidade de Campinas (Unicamp), Universidade Estadual de São Paulo (Unesp), Universidade de Minas Gerais (UFMG), Universidade do Rio Grande do Sul (UFRGS) e Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ).

São Paulo
O estado paulista é destaque no campo de pesquisa científica, já que detém três das universidades citadas pela Unesco e recebe entre 30% e 35% do investimento de agências federais de fomento.

A contribuição do estado para o gasto com pesquisa e desenvolvimento em 2007 superou países como Chile, Argentina e México.

Fonte: G1 (10/11/2010)

quinta-feira, 21 de outubro de 2010

Circuito Sesc de Artes 2010 estará em São Roque neste domingo

Com apoio da Prefeitura de São Roque e do Sindicado do Comércio Varejista (Sincomércio/Acia), a cidade receberá neste domingo, 24, o Circuito Sesc de Artes 2010. A atividade é gratuita e acontecerá na Praça da Matriz a partir das 15h30.

São Roque foi prestigiada com a programação do Serviço Social do Comércio (Sesc) entre 88 cidades do interior, litoral e grande São Paulo. A diversidade das linguagens artísticas será contemplada com atividades nas áreas de artemídia, artes visuais, circo, dança, literatura, música e teatro.
Segundo o SESC, o imaginário da praça como ponto de encontro e de trocas simbólicas é o eixo da programação, que traz uma série de atividades intervindo no espaço público e no cotidiano das cidades.

Programação
Abrindo a programação, às 15h30, o espetáculo circense “Rádio Variété”, do grupo La Mínima, é uma homenagem ao palhaço brasileiro e ao rádio. Três artistas do teatro de variedades instalam uma parafernália um tanto tecnológica, mas aparentemente obsoleta, transformando a rua em um estúdio de “rádio-circo-teatro”, desfilando atrações diversas, num programa sobre memórias, desejos e emoções, construindo assim a grande e complexa relação humana dos cidadãos comuns.

Iniciando concomitantemente às 15h30, com término às 19h30, a oficina “Correspondências”, ministrada pela desenhista e artista plástica Biba Rigo, traz o resgate do ato da escrita de cartas, que serão enviadas ao fim do dia.

Das 16h30 às 20h30, um arte educador mediará o Jogo Acervo SESC de Arte Brasileira, que tem o objetivo de aproximar o público ao universo artístico, por meio do contato com obras de arte, através das cartas em que estão impressas imagens, que servirão como ponto de partida para indagações e reflexões educativas relacionadas com os trabalhos artísticos.

Previsto também para as 16h30, o Espaço para a Dança é a performance da bailarina mineira Cris Oliveira, que propõe a investigação de ideias e modos de dança, além de colocar o espectador como co-autor da experiência, por meio de improvisação da criação do espaço coletivo para dançar. Assim, o público escolhe o figurino, a música e sugere a dança, contextualizando a improvisação da dançarina, numa composição conjunta entre público e artista.

Na sequência, às 17h30, o espetáculo teatral “Este lado para cima”, da Brava Companhia, apresenta o poder do mercado de consumo no controle das relações humanas, temática séria e contemporânea, representada com pitadas de humor anárquico nesta apresentação.

Durante todo o dia o Repórter Abelha entrevistará as pessoas da cidade sobre suas referências literárias (livros que estão lendo, poetas e escritores preferidos, etc). O material produzido pelo vídeo-repórter será editado e apresentado no telão, às 18h50, promovendo o encontro das respostas registradas com o público.

A intervenção das 19h é realizada pelos escritores Paulo Scott, do Rio Grande do Sul, e Chacal, do Rio de Janeiro, com a participação de Marcelo Montenegro, Fernanda D'Umbra e o músico Flu. “Vocabulário”, com imagens projetadas no telão, em que privilegia-se a palavra falada, os colóquios, os vernáculos, os muitos sotaques e jeitos brasileiros da expressão, utiliza ainda a palavra e sua sonoridade de diferentes maneiras, através de esquetes apresentadas pelos artistas, que têm como enredo principal o vocabulário, título desta intervenção.

Dando continuidade, às 20h, “Requien Granular” é uma composição artemídia, inspirada na teoria que organiza a música em pequenos pedaços, agregando um repertório de imagens composto por filmes de antigos esportes do século passado, das décadas de 50 e 80. O VJ Tomas Klotzel utiliza-se da passagem do tempo, promovendo com esta atividade a reflexão sobre cada momento vivenciado.

A programação se encerrará às 20h30 com a banda Sandália de Prata, uma das mais respeitadas bandas de samba rock do Estado de São Paulo. Os artistas, há mais de 10 anos em atividade e com três discos lançados, garantem uma apresentação recheada de suingue e diversão.

O Circuito SESC de Artes 2010 ainda contará com a participação de um cronista, fazendo registro e relatos das atividades, que serão publicados no site do Circuito www.sescsp.org.br/circuito.

Fonte: Guia São Roque. (20/10/2010)

quinta-feira, 14 de outubro de 2010

EDUCAÇÃO – O BRASIL NO RUMO CERTO

Manifesto dos Reitores das Universidades Federais à Nação Brasileira

Da pré-escola ao pós-doutoramento – ciclo completo educacional e acadêmico de formação das pessoas na busca pelo crescimento pessoal e profissional – consideramos que o Brasil encontrou o rumo nos últimos anos, graças a políticas, aumento orçamentário, ações e programas implementados pelo Governo Lula com a participação decisiva e direta de seus ministros, os quais reconhecemos, destacando o nome do Ministro Fernando Haddad.

Aliás, de forma mais ampla, assistimos a um crescimento muito significativo do País em vários domínios: ocorreu a redução marcante da miséria e da pobreza; promoveu-se a inclusão social de milhões de brasileiros, com a geração de empregos e renda; cresceu a autoestima da população, a confiança e a credibilidade internacional, num claro reconhecimento de que este é um País sério, solidário, de paz e de povo trabalhador. Caminhamos a passos largos para alcançar patamares mais elevados no cenário global, como uma Nação livre e soberana que não se submete aos ditames e aos interesses de países ou organizações estrangeiras.

Este período do Governo Lula ficará registrado na história como aquele em que mais se investiu em educação pública: foram criadas e consolidadas 14 novas universidades federais; institui-se a Universidade Aberta do Brasil; foram construídos mais de 100 campi universitários pelo interior do País; e ocorreu a criação e a ampliação, sem precedentes históricos, de Escolas Técnicas e Institutos Federais. Através do PROUNI, possibilitou-se o acesso ao ensino superior a mais de 700.000 jovens. Com a implantação do REUNI, estamos recuperando nossas Universidades Federais, de norte a sul e de leste a oeste. No geral, estamos dobrando de tamanho nossas Instituições e criando milhares de novos cursos, com investimentos crescentes em infraestrutura e contratação, por concurso público, de profissionais qualificados. Essas políticas devem continuar para consolidar os programas atuais e, inclusive, serem ampliadas no plano Federal, exigindo-se que os Estados e Municípios também cumpram com as suas responsabilidades sociais e constitucionais, colocando a educação como uma prioridade central de seus governos.

Por tudo isso e na dimensão de nossas responsabilidades enquanto educadores, dirigentes universitários e cidadãos que desejam ver o País continuar avançando sem retrocessos, dirigimo-nos à sociedade brasileira para afirmar, com convicção, que estamos no rumo certo e que devemos continuar lutando e exigindo dos próximos governantes a continuidade das políticas e investimentos na educação em todos os níveis, assim como na ciência, na tecnologia e na inovação, de que o Brasil tanto precisa para se inserir, de uma forma ainda mais decisiva, neste mundo contemporâneo em constantes transformações.

Finalizamos este manifesto prestando o nosso reconhecimento e a nossa gratidão ao Presidente Lula por tudo que fez pelo País, em especial, no que se refere às políticas para educação, ciência e tecnologia. Ele também foi incansável em afirmar, sempre, que recurso aplicado em educação não é gasto, mas sim investimento no futuro do País. Foi exemplo, ainda, ao receber em reunião anual, durante os seus 8 anos de mandato, os Reitores das Universidades Federais para debater políticas e ações para o setor, encaminhando soluções concretas, inclusive, relativas à Autonomia Universitária.

Alan Barbiero – Universidade Federal do Tocantins (UFT)
José Weber Freire Macedo – Univ. Fed. do Vale do São Francisco (UNIVASF)
Aloisio Teixeira – Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ)
Josivan Barbosa Menezes – Universidade Federal Rural do Semi-árido (UFERSA)
Amaro Henrique Pessoa Lins – Universidade Federal de Pernambuco (UFPE)
Malvina Tânia Tuttman – Univ. Federal do Estado do Rio de Janeiro (UNIRIO)
Ana Dayse Rezende Dórea – Universidade Federal de Alagoas (UFAL)
Maria Beatriz Luce – Universidade Federal do Pampa (UNIPAMPA)
Antonio César Gonçalves Borges – Universidade Federal de Pelotas (UFPel)
Maria Lúcia Cavalli Neder – Universidade Federal de Mato Grosso (UFMT)
Carlos Alexandre Netto – Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS)
Miguel Badenes P. Filho – Centro Fed. de Ed. Tec. (CEFET RJ)
Carlos Eduardo Cantarelli – Univ. Tec. Federal do Paraná (UTFPR)
Miriam da Costa Oliveira – Univ.. Fed. de Ciênc. da Saúde de POA (UFCSPA)
Célia Maria da Silva Oliveira – Univ. Federal de Mato Grosso do Sul (UFMS)
Natalino Salgado Filho – Universidade Federal do Maranhão (UFMA)
Damião Duque de Farias – Universidade Federal da Grande Dourados (UFGD)
Paulo Gabriel S. Nacif – Universidade Federal do Recôncavo da Bahia (UFRB)
Felipe .Martins Müller – Universidade Federal da Santa Maria (UFSM).
Pedro Angelo A. Abreu – Univ. Fed. do Vale do Jequetinhonha e Mucuri (UFVJM)
Hélgio Trindade – Univ. Federal da Integração Latino-Americana (UNILA)
Ricardo Motta Miranda – Univ. Fed. Rural do Rio de Janeiro (UFRRJ)
Hélio Waldman – Universidade Federal do ABC (UFABC)
Roberto de Souza Salles – Universidade Federal Fluminense (UFF)
Henrique Duque Chaves Filho – Univ. Federal de Juiz de Fora (UFJF)
Romulo Soares Polari – Universidade Federal da Paraíba (UFPB)
Jesualdo Pereira Farias – Universidade Federal do Ceará – UFC
Sueo Numazawa – Universidade Federal Rural da Amazônia (UFRA)
João Carlos Brahm Cousin – Universidade Federal do Rio Grande – (FURG)
Targino de Araújo Filho – Univ. Federal de São Carlos (UFSCar)
José Carlos Tavares Carvalho – Universidade Federal do Amapá (UNIFAP)
Thompson F. Mariz – Universidade Federal de Campina Grande (UFCG)
José Geraldo de Sousa Júnior – Universidade Federal de Brasília (UNB)
Valmar C. de Andrade – Universidade Federal Rural de Pernambuco (UFRPE)
José Seixas Lourenço – Universidade Federal do Oeste do Pará (UFOPA)
Virmondes Rodrigues Júnior – Univ. Federal do Triângulo Mineiro (UFTM)
Walter Manna Albertoni – Universidade Federal de São Paulo ( UNIFESP)

Manifesto em Defesa da Educação Pública

Nós, professores universitários, consideramos um retrocesso as propostas e os métodos políticos da candidatura Serra. Seu histórico como governante preocupa todos que acreditam que os rumos do sistema educacional e a defesa de princípios democráticos são vitais ao futuro do país.
Sob seu governo, a Universidade de São Paulo foi invadida por policiais armados com metralhadoras, atirando bombas de gás lacrimogêneo. Em seu primeiro ato como governador, assinou decretos que revogavam a relativa autonomia financeira e administrativa das Universidades estaduais paulistas. Os salários dos professores da USP, Unicamp e Unesp vêm sendo sistematicamente achatados, mesmo com os recordes na arrecadação de impostos. Numa inversão da situação vigente nas últimas décadas, eles se encontram hoje em patamares menores que a remuneração dos docentes das Universidades federais.
Esse “choque de gestão” é ainda mais drástico no âmbito do ensino fundamental e médio, convergindo para uma política sistemática de sucateamento da rede pública. São Paulo foi o único Estado que não apresentou, desde 2007, crescimento no exame do Ideb, índice que avalia o aprendizado desses dois níveis educacionais.
Os salários da rede pública no Estado mais rico da federação são menores que os de Tocantins, Roraima, Rio de Janeiro, Mato Grosso, Espírito Santo, Acre, entre outros. Somada aos contratos precários e às condições aviltantes de trabalho, a baixa remuneração tende a expelir desse sistema educacional os professores mais qualificados. Diante das reivindicações por melhores condições de trabalho, Serra costuma afirmar que não passam de manifestação de interesses corporativos e sindicais, de “tró-ló-ló” de grupos políticos que querem desestabilizá-lo. Assim, além de evitar a discussão acerca do conteúdo das reivindicações, desqualifica movimentos organizados da sociedade civil, quando não os recebe com cassetetes.
Serra escolheu como Secretário da Educação Paulo Renato, ministro nos oito anos do governo FHC. Neste período, nenhuma Escola Técnica Federal foi construída e as existentes arruinaram-se. As universidades públicas federais foram sucateadas ao ponto em que faltou dinheiro até mesmo para pagar as contas de luz, como foi o caso na UFRJ. A proibição de novas contratações gerou um déficit de 7.000 professores. Em contrapartida, sua gestão incentivou a proliferação sem critérios de universidades privadas. Já na Secretaria da Educação de São Paulo, Paulo Renato transferiu, via terceirização, para grandes empresas educacionais privadas a organização dos currículos escolares, o fornecimento de material didático e a formação continuada de professores. O Brasil não pode correr o risco de ter seu sistema educacional dirigido por interesses econômicos privados.
No comando do governo federal, o PSDB inaugurou o cargo de “engavetador geral da república”. Em São Paulo, nos últimos anos, barrou mais de setenta pedidos de CPIs, abafando casos notórios de corrupção que estão sendo julgados em tribunais internacionais. Seu atual candidato à presidência não hesita em tentar explicitamente interferir no sistema judiciário e em controlar a produção da informação. Destrata jornalistas que lhe dirigem perguntas embaraçosas, enquanto a TV Cultura demite profissionais que realizaram reportagem sobre pedágios.
Sua campanha promove uma deseducação política ao imitar práticas da extrema direita norte-americana em que uma orquestração de boatos dissemina a calúnia e a difamação. A celebração bonapartista de sua pessoa, em detrimento das forças políticas, só encontra paralelo na campanha de 1989, de Fernando Collor.
Como candidato, José Serra já é uma ameaça à liberdade de imprensa e à democracia. Não é difícil imaginar o que faria se fosse eleito.

domingo, 10 de outubro de 2010

Marina,... você me pintou?

Maurício Abdalla [1]


“Marina, morena Marina, você se pintou” – diz a canção de Caymmi. Mas é provável, Marina, que pintaram você. Era a candidata ideal: mulher, militante, ecológica e socialmente comprometida com o “grito da Terra e o grito dos pobres”, como diz Leonardo.

Dizem que escolheu o partido errado. Pode ser. Mas, por outro lado, o que é certo neste confuso tempo de partidos gelatinosos, de alianças surreais e de pragmatismo hiperbólico? Quem pode atirar a primeira pedra no que diz respeito a escolhas partidárias?

Mas ainda assim, Marina, sua candidatura estava fadada a não decolar. Não pela causa que defende, não pela grandeza de sua figura. Mas pelo fato de que as verdadeiras causas que afetam a população do Brasil não interessam aos financiadores de campanha, às elites e aos seus meios de comunicação. A batalha não era para ser sua. Era de Dilma contra Serra. Do governo Lula contra o governo do PSDB/DEM. Assim decidiram as “famiglias” que controlam a informação no país. E elas não só decidiram quem iria duelar, mas também quiseram definir o vencedor. O Estadão dixit: Serra deve ser eleito.

Mas a estratégia de reconduzir ao poder a velha aliança PSDB/DEM estava fazendo água. O povo insistia em confirmar não a sua preferência por Dilma, mas seu apreço pelo Lula. O que, é claro, se revertia em intenção de voto em sua candidata. Mas “os filhos das trevas são mais espertos do que os filhos da luz”. Sacaram da manga um ás escondido.Usar a Marina como trampolim para levar o tucano para o segundo turno e ganhar tempo para a guerra suja.

Marina, você, cujo coração é vermelho e verde, foi pintada de azul. “Azul tucano”. Deram-lhe o espaço que sua causa nunca teve, que sua luta junto aos seringueiros e contra as elites rurais jamais alcançaria nos grandes meios de comunicação. A Globo nunca esteve ao seu lado. A Veja, a FSP, o Estadão jamais se preocuparam com a ecologia profunda. Eles sempre foram, e ainda são, seus e nossos inimigos viscerais.

Mas a estratégia deu certo. Serra foi para o segundo turno, e a mídia não cansa de propagar a “vitória da Marina”. Não aceite esse presente de grego. Hão de descartá-la assim que você falar qual é exatamente a sua luta e contra quem ela se dirige.

“Marina, você faça tudo, mas faça o favor”: não deixe que a pintem de azul tucano. Sua história não permite isso. E não deixe que seus eleitores se iludam acreditando que você está mais perto de Serra do que de Dilma. Que não pensem que sua luta pode torná-la neutra ou que pensem que para você “tanto faz”. Que os percalços e dificuldades que você teve no Governo Lula não a façam esquecer os 8 anos de FHC e os 500 anos de domínio absoluto da Casagrande no país cuja maioria vive na senzala. Não deixe que pintem “esse rosto que o povo gosta, que gosta e é só dele”.

Dilma, admitamos, não é a candidata de nossos sonhos. Mas Serra o é de nossos mais terríveis pesadelos. Ajude-nos a enfrentá-lo. Você não precisa dos paparicos da elite brasileira e de seus meios de comunicação. “Marina, você já é bonita com o que Deus lhe deu”.

[1] Professor de filosofia da UFES, autor de "Iara e a Arca da Filosofia" (Mercuryo Jovem), dentre outros.

Imprensa Golpista

Mais uma do PIG (Partido da Imprensa Golpista). E depois afirmam que o governo atual tem um plano para calar a mídia!

Dois Pesos
02 de outubro de 2010
Maria Rita Kehl - O Estado de S.Paulo


Este jornal teve uma atitude que considero digna: explicitou aos leitores que apoia o candidato Serra na presente eleição. Fica assim mais honesta a discussão que se faz em suas páginas. O debate eleitoral que nos conduzirá às urnas amanhã está acirrado. Eleitores se declaram exaustos e desiludidos com o vale-tudo que marcou a disputa pela Presidência da República. As campanhas, transformadas em espetáculo televisivo, não convencem mais ninguém. Apesar disso, alguma coisa importante está em jogo este ano. Parece até que temos luta de classes no Brasil: esta que muitos acreditam ter sido soterrada pelos últimos tijolos do Muro de Berlim. Na TV a briga é maquiada, mas na internet o jogo é duro.

Se o povão das chamadas classes D e E - os que vivem nos grotões perdidos do interior do Brasil - tivesse acesso à internet, talvez se revoltasse contra as inúmeras correntes de mensagens que desqualificam seus votos. O argumento já é familiar ao leitor: os votos dos pobres a favor da continuidade das políticas sociais implantadas durante oito anos de governo Lula não valem tanto quanto os nossos. Não são expressão consciente de vontade política. Teriam sido comprados ao preço do que parte da oposição chama de bolsa-esmola.

Uma dessas correntes chegou à minha caixa postal vinda de diversos destinatários. Reproduzia a denúncia feita por "uma prima" do autor, residente em Fortaleza. A denunciante, indignada com a indolência dos trabalhadores não qualificados de sua cidade, queixava-se de que ninguém mais queria ocupar a vaga de porteiro do prédio onde mora. Os candidatos naturais ao emprego preferiam viver na moleza, com o dinheiro da Bolsa-Família. Ora, essa. A que ponto chegamos. Não se fazem mais pés de chinelo como antigamente. Onde foram parar os verdadeiros humildes de quem o patronato cordial tanto gostava, capazes de trabalhar bem mais que as oito horas regulamentares por uma miséria? Sim, porque é curioso que ninguém tenha questionado o valor do salário oferecido pelo condomínio da capital cearense. A troca do emprego pela Bolsa-Família só seria vantajosa para os supostos espertalhões, preguiçosos e aproveitadores se o salário oferecido fosse inconstitucional: mais baixo do que metade do mínimo. R$ 200 é o valor máximo a que chega a soma de todos os benefícios do governo para quem tem mais de três filhos, com a condição de mantê-los na escola.

Outra denúncia indignada que corre pela internet é a de que na cidade do interior do Piauí onde vivem os parentes da empregada de algum paulistano, todos os moradores vivem do dinheiro dos programas do governo. Se for verdade, é estarrecedor imaginar do que viviam antes disso. Passava-se fome, na certa, como no assustador Garapa, filme de José Padilha. Passava-se fome todos os dias. Continuam pobres as famílias abaixo da classe C que hoje recebem a bolsa, somada ao dinheirinho de alguma aposentadoria. Só que agora comem. Alguns já conseguem até produzir e vender para outros que também começaram a comprar o que comer. O economista Paul Singer informa que, nas cidades pequenas, essa pouca entrada de dinheiro tem um efeito surpreendente sobre a economia local. A Bolsa-Família, acreditem se quiserem, proporciona as condições de consumo capazes de gerar empregos. O voto da turma da "esmolinha" é político e revela consciência de classe recém-adquirida.

O Brasil mudou nesse ponto. Mas ao contrário do que pensam os indignados da internet, mudou para melhor. Se até pouco tempo alguns empregadores costumavam contratar, por menos de um salário mínimo, pessoas sem alternativa de trabalho e sem consciência de seus direitos, hoje não é tão fácil encontrar quem aceite trabalhar nessas condições. Vale mais tentar a vida a partir da Bolsa-Família, que apesar de modesta, reduziu de 12% para 4,8% a faixa de população em estado de pobreza extrema. Será que o leitor paulistano tem ideia de quanto é preciso ser pobre, para sair dessa faixa por uma diferença de R$ 200? Quando o Estado começa a garantir alguns direitos mínimos à população, esta se politiza e passa a exigir que eles sejam cumpridos. Um amigo chamou esse efeito de "acumulação primitiva de democracia".

Mas parece que o voto dessa gente ainda desperta o argumento de que os brasileiros, como na inesquecível observação de Pelé, não estão preparados para votar. Nem todos, é claro. Depois do segundo turno de 2006, o sociólogo Hélio Jaguaribe escreveu que os 60% de brasileiros que votaram em Lula teriam levado em conta apenas seus próprios interesses, enquanto os outros 40% de supostos eleitores instruídos pensavam nos interesses do País. Jaguaribe só não explicou como foi possível que o Brasil, dirigido pela elite instruída que se preocupava com os interesses de todos, tenha chegado ao terceiro milênio contando com 60% de sua população tão inculta a ponto de seu voto ser desqualificado como pouco republicano.

Agora que os mais pobres conseguiram levantar a cabeça acima da linha da mendicância e da dependência das relações de favor que sempre caracterizaram as políticas locais pelo interior do País, dizem que votar em causa própria não vale. Quando, pela primeira vez, os sem-cidadania conquistaram direitos mínimos que desejam preservar pela via democrática, parte dos cidadãos que se consideram classe A vem a público desqualificar a seriedade de seus votos.


"Fui demitida por um 'delito' de opinião"
Bob Fernandes

A psicanalista Maria Rita Kehl foi demitida pelo Jornal O Estado de S. Paulo depois de ter escrito, no último sábado (2), artigo sobre a "desqualificação" dos votos dos pobres. O texto, intitulado "Dois pesos...", gerou grande repercussão na internet e mídias sociais nos últimos dias.

Nesta quinta-feira (7), ela falou a Terra Magazine sobre as consequências do seu artigo:
- Fui demitida pelo jornal o Estado de S. Paulo pelo que consideraram um "delito" de opinião (...) Como é que um jornal que anuncia estar sob censura, pode demitir alguém só porque a opinião da pessoa é diferente da sua?

Leia abaixo a entrevista.

Terra Magazine - Maria Rita, você escreveu um artigo no jornal O Estado de S.Paulo que levou a uma grande polêmica, em especial na internet, nas mídias sociais nos últimos dias. Em resumo, sobre a desqualificação dos votos dos pobres. Ao que se diz, o artigo teria provocado conseqüências para você...
Maria Rita Kehl - E provocou, sim...

- Quais?
- Fui demitida pelo jornal O Estado de S.Paulo pelo que consideraram um "delito" de opinião.

- Quando?
- Fui comunicada ontem (quarta-feira, 6).

- E por qual motivo?
- O argumento é que eles estavam examinando o comportamento, as reações ao que escrevi e escrevia, e que, por causa da repercussão (na internet), a situação se tornou intolerável, insustentável, não me lembro bem que expressão usaram.

- Você chegou a argumentar algo?
- Eu disse que a repercussão mostrava, revelava que, se tinha quem não gostasse do que escrevo, tinha também quem goste. Se tem leitores que são desfavoráveis, tem leitores que são a favor, o que é bom, saudável...

- Que sentimento fica para você?
- É tudo tão absurdo... A imprensa que reclama, que alega ter o governo intenções de censura, de autoritarismo...

- Você concorda com essa tese?
- Não, acho que o presidente Lula e seus ministros cometem um erro estratégico quando criticam, quando se queixam da imprensa, da mídia, um erro porque isso, nesse ambiente eleitoral pode soar autoritário, mas eu não conheço nenhuma medida, nenhuma ação concreta, nunca ouvi falar de nenhuma ação concreta para cercear a imprensa. Não me refiro a debates, frases soltas, falo em ação concreta, concretizada. Não conheço nenhuma, e, por outro lado...

- ...Por outro lado...?- Por outro lado a imprensa que tem seus interesses econômicos, partidários, demite alguém, demite a mim, pelo que considera um "delito" de opinião. Acho absurdo, não concordo, que o dono do Maranhão (senador José Sarney) consiga impor a medida que impôs ao jornal O Estado de S.Paulo, mas como pode esse mesmo jornal demitir alguém apenas porque expôs uma opinião? Como é que um jornal que está, que anuncia estar sob censura, pode demitir alguém só porque a opinião da pessoa é diferente da sua?

- Você imagina que isso tenha algo a ver com as eleições?
- Acho que sim. Isso se agravou com a eleição, pois, pelo que eles me alegaram agora, já havia descontentamento com minhas análises, minhas opiniões políticas.

domingo, 19 de setembro de 2010

Com 900 mil votos, Tiririca teria a maior votação do país



A experiência política dos últimos anos mostrou que a democracia é um regime com imperfeições. No entanto, dos vários modelos políticos que tivemos, a democracia se destaca pela possibilidade de ampla participação do povo e de constante renovação dos políticos. Para isso melhorar, precisamos tomar cuidado em quem depositamos o nosso voto. Entretanto, a matéria abaixo revela que muitos paulistas e paulistanos não estão pensando nisso. Triste!

Rogério de Souza.

***

O palhaço Tiririca (PR), que provoca risos e polêmica desde que suas controversas propagandas foram ao ar na TV, seria, se a eleição fosse hoje, o deputado federal mais votado em todo o país.
Pesquisa Datafolha mostra que ele obteria 3% dos votos em São Paulo, chegando a 900 mil, considerando-se a proporção de 30 milhões de eleitores do Estado.
Tiririca venceria políticos tradicionais como o deputado federal Paulo Maluf (PP-SP) que, assim como o também deputado Márcio França (PSB-SP), aparece na sequência, com 1% dos votos, chegando a uma estimativa de cerca de 300 mil cada um.
Tiririca teria mais votos do que Maluf teve nas eleições de 2006, quando foi o deputado mais votado em todo o Brasil, com 739 mil votos.

Divulgação
Com a legenda 2222, de fácil memorização, o palhaço Tiririca foi escalado como puxador de votos pelo Partido da República
Em termos absolutos, em toda a história só perderia para Enéas Carneiro, morto em 2007, que nas eleições de 2002 foi anotado na urna por 1,5 milhão de eleitores.
Outras votações históricas, como a de Lula em 1986 --650 mil--, também seriam superadas. Neste caso, ressalve-se, o colégio eleitoral era menor do que o de hoje.
O interesse sobre o palhaço é tanto que, desde a semana de 15 de agosto, o Google afere mais buscas por Tiririca do que por Dilma Rousseff, José Serra ou Marina Silva.

ALVO DE ADVERSÁRIOS

Por causa de sua propaganda --"vote Tiririca, pior que tá não fica", "o que faz um deputado federal? na realidade eu não sei"--, cujo texto teve a participação de integrantes do grupo de humor Café com Bobagem, com quem trabalhou em "A Praça é Nossa", do SBT, o palhaço virou mote de adversários.
Já foi criticado por candidatos como Márcio França --que investiu no discurso de que política é coisa séria--, socado simbolicamente por Maguila (PTN) e levou Paulo Skaf (PSB) a mostrar imagem de si próprio como palhaço.
Além deles, Said Mourad (PSC) usou um candidato falso ("Larica 0000"), vestido como Tiririca, para logo advertir que "voto não é piada".
Fora da TV, até aliados como Aloizio Mercadante (PT), que tem o apoio do PR na eleição paulista, vieram a criticá-lo. O petista pediu ao eleitor, em debate Folha/RedeTV! desta semana, que não transformasse o voto "em um protesto" e que votasse em políticos sérios.

FORASTEIROS
Outros outsiders da política também aparecem bem mencionados na pesquisa. O ex-jogador Romário (PSB), que estreia no certame eleitoral fluminense, tem 1% das menções. Em um colégio de 11,5 milhões de eleitores, poderia angariar 115 mil votos.
Mais um ex-atleta bem posicionado é o ex-goleiro Danrlei, que fez carreira no Grêmio. Ele aparece, entre os gaúchos, com 1% das intenções, o que lhe daria 80 mil votos, considerada a proporção de eleitores no Estado.
Dentre os candidatos que exercem ou já exerceram mandatos parlamentares se destacam, no Rio, o ex-governador Anthony Garotinho e o apresentador e deputado estadual Wagner Montes.
Garotinho, do mesmo PR de Tiririca, teria 2% e seria o mais bem votado no Estado, com 230 mil votos.
Wagner Montes (PDT) tem o mesmo 1% de Romário, assim como o deputado federal Jair Bolsonaro (DEM).
No Rio Grande do Sul, Manuela D'Ávila (PC do B), a deputada mais votada entre os gaúchos em 2006, pode repetir o feito. Com 2% das intenções, teria 160 mil votos.
Em Minas Gerais, segundo maior colégio do país, oito candidatos aparecem empatados em primeiro com 1%, sendo seis do PT.

INDECISOS
A pesquisa mostra também que dois em cada três eleitores (66%) ainda não decidiram em quem votar para deputado federal.

FERNANDO GALLO
Fonte: www.folha.com.br (19/09/2010)

As celebridades na política

A matéria abaixo explica peculiaridade (quociente eleitoral) da política brasileira e porque os partidos políticos recorrem a personagens conhecidos nas disputas eleitorais.

Rogério de Souza.


Quociente eleitoral favorece "fenômeno Tiririca"; entenda como funciona

Com o slogan "pior que tá não fica", o palhaço Tiririca é a aposta do PR para as eleições parlamentares deste ano no Estado de São Paulo. Apesar da polêmica - e dos risos - que seus bordões vêm despertando no horário eleitoral, a presença do humorista na campanha obedece a uma lógica simples: conquistar o maior número de votos possíveis para que eleger a si mesmo e a outros candidatos por meio do quociente eleitoral.
O cientista Rubens Figueiredo, da USP (Universidade de São Paulo), explica como funciona:
"O Estado de São Paulo tem 70 deputados federais. Vamos supor que São Paulo tenha 700 mil votos. Dividindo 700 mil por 70, o quoeficiente seria de 10 mil. O partido vai ter 30 candidatos: soma a votação de todos mais os votos na legenda. Vamos supor que deu 22 mil. Agora divida 22 mil por 10 mil - vai dar 2,2. O partido vai eleger dois deputados", detalha.
Num dos casos mais curiosos, a vaga de Clodovil Hernandes (PTC-SP) na Câmara Federal foi ocupada por Paes de Lira (PTC), coronel da reserva da Polícia Militar, assumidamente conservador e contrário à união homossexual ("a Constituição é clara ao dizer que casamento é entre homem e mulher", afirmou).
Homossexual assumido, o estilista Clodovil, que faleceu no início de 2009, foi eleito com quase 500 mil votos nas eleições de 2006, abrindo as portas para que Lira chegasse a sua suplência após ter recebido cerca de 7 mil votos. "Você tem essa possibilidade de a locomotiva se eleger arrastando o restante", afirma o cientista político David Fleischer, da UnB (Universidade de Brasília).
"O Tiririca [humorista, candidato a deputado federal em São Paulo] é do PR, que era o PL do Valdemar Costa Neto", diz Figueiredo. Dependendo da votação do humorista, Costa Neto, que renunciou em 2006 para escapar de cassação por envolvimento no escândalo do "mensalão", pode ser eleito a tiracolo.
Em outro caso emblemático, o cardiologista Éneas Carneiro elegeu-se deputado federal pelo Prona de São Paulo em 2002. Recorrendo ao bordão "Meu nome é Enéas", obteve votos suficientes para eleger outros cinco candidatos, todos com votações inexpressivas.
O especialista da UnB explica que a "sobra" dos votos só vai para um único partido se ele não estiver coligado com nenhuma outra agremiação - caso do Prona em 2002. "O pessoal fala no PR do Tiririca, mas os votos nele também vão beneficiar o PT", afirma o especialista. Os dois partidos estão coligados no Estado de São Paulo. "Por isso as pessoas se frustram nas eleições: votam em um candidato e acabam contribuindo para eleger alguém que não conhecem", diz.

Vantagens da fama
Na maioria das vezes, há um elemento determinante para que a candidatura das personalidades seja aceita por um partido: a notoriedade.
"No governo militar, Arena e MDB fizeram o maior assédio para o Pelé ser candidato em São Paulo, mas ele recusou", relembra Fleischer. "Na Roma antiga, era proibido ser ator e politico. É muito fácil transferir seu prestigio de um ramo para o outro", conta Luciano Dias, do IBEP (Instituto Brasileiro de Ciências Políticas).
O fenômeno, garantem os analistas, não se restringe as nossas fronteiras.
"Não é tipicamente brasileiro. A participação de celebridades é comum. Ronald Reagan [ex-presidente dos Estados Unidos] era ator, Arnold Schwarzzeneger, ator, é governador da Califórnia, Carlos Reutemann [ex-piloto argentino] foi presidente de província na Argentina, Cicciolina [ex-atriz pornô] se elegeu na Itália", afirma Figueiredo. "É um fenômeno da sociedade moderna", avalia.

Diego Salmen
Fonte: http://www.uol.com.br/ (19/09/2010)

Nova doméstica tem carro zero e faz faculdade

A reportagem abaixo mostra a dinâmica social de uma profissão que no passado era mal vista, mas nos últimos anos, principalmente após a estabilidade e crescimento econômico do país, conquistou espaço e passou a ser valorizada: a profissão da doméstica.
Destaque para o fato de a profissão empregar 17% das mulheres que estão no mercado de trabalho.
Sobre o tema, recomendo o filme "Domésticas", do diretor Fernando Meirelles - crítica social das condições de trabalho e vida das profissionais da área de forma divertida.

Rogério de Souza.

***

Aquele velho perfil da doméstica, com baixa escolaridade e renda inferior a um salário mínimo por mês, está perdendo espaço para um novo tipo de profissional da área: mulheres mais estudadas e com perfil empreendedor, afirmam as próprias trabalhadoras. O G1 conversou com domésticas que ganham em média R$ 1,5 mil, têm carro zero e, entre outras atividades, fazem faculdade.
Conforme dados divulgados este mês na Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (Pnad), do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), em 2009 os trabalhadores domésticos no Brasil eram 7,2 milhões -- alta de 12% em relação ao ano anterior. Em cinco anos, o total de domésticos com carteira assinada subiu 20%, conforme a pesquisa.
O instituto mostra também que das 39,5 milhões de mulheres que trabalham no país, o maior percentual é justamente de domésticas (17%). 16,8% delas estão no comércio e 16,7% estão na educação, saúde e serviços sociais.
A carioca Vera Lúcia da Silva Teixeira, de 42 anos, diarista há mais de 20, vive uma realidade bem próxima da vivida pela patroa. Ela estuda direito em uma faculdade particular do Rio, paga colégio particular para a filha, de 19 anos, troca mensagens de celular com os patrões e ainda está sempre conectada na internet.
Moradora na Zona Oeste do Rio, Vera divide seu tempo de trabalho em oito apartamentos da Zona Sul. Mas a doméstica moderna afirma que seu caso não é tão comum e que sofre preconceitos. "Se falo que sou diarista, moro na Freguesia (bairro da Zona Oeste) e faço faculdade particular, não acreditam. As pessoas são muito preconceituosas",disse.
Vera quer fazer concurso para ser juíza ao terminar a faculdade. Segundo ela, a relação com os patrões melhorou e ela se sente mais respeitada. “Tudo mudou. Parece que abre um leque, as pessoas te olham de outra forma”, contou.
Prefiro ir trabalhar de carro do que a pé. Imagina, depois de um dia cansativo de limpeza, ainda pegar ônibus lotado?"Agenora Silva, diarista.

Carro zero
Moradora de Santo André, na Grande São Paulo, a diarista Agenora Silva, de 47 anos, ganha, em média, R$ 1.500 por mês e trabalha em uma casa diferente a cada dia da semana. Ela diz não ter vergonha de sua profissão. "Eu acho que daqui a alguns anos, a empregada doméstica vai ter mais valor do que quem trabalha em banco, em firma. Eu tenho amigas que trabalham em loja, e falam como se fosse uma coisa superior. Mas elas ganham menos, mixaria", disse.
Vai para as casas onde trabalha de carro zero, que financiou em cinco anos com prestação de R$ 700 por mês. Foi beneficiada pela expansão do crédito e conseguiu financiamento mesmo sem comprovação de renda. "Prefiro ir trabalhar de carro do que a pé. Imagina, depois de um dia cansativo de limpeza, ainda pegar ônibus lotado?."
Agenora conta que o "sucesso" de sua profissão se dá por conta de seu empreendedorismo. "Tem que ser esperta, né. Eu avalio o tamanho da casa, a quantidade de gente que mora, a distância. Daí cobro entre R$ 60 e R$ 100 por dia de trabalho, dependendo do caso." Ela confessa que já recusou trabalho. "Quando não tenho dia, eu recuso. Às vezes eu queria ser duas." A diarista faz também academia para liberar o estresse do trabalho.
Com ensino médio completo e dona de uma casa própria, ela diz que sempre teve o sonho de estudar Administração de Empresas, mas afirma que "a idade não permite". Agora, o próximo passo é comprar uma moto. "Eu quero comprar e vou comprar. Gasta menos e posso deixar meu carro na garagem. Pretendo comprar até dezembro e estou juntando dinheiro para pagar à vista."
Eu mostrei no estacionamento e ele respondeu ‘mas aquilo ali não é carro de empregadinha não, é carro de madame’. Eu falei ‘olha, trabalhei muito, eu e meu marido, para conseguir comprar esse carro’. Só porque sou doméstica não posso ter um carro melhor?"Rosangela Gomes, diarista que vai de carro para o trabalhoA diarista Josefa Evaristo, moradora de Itaquaquecetuba, na Grande São Paulo, tem 42 anos e é doméstica há 30. Também tem carro do ano financiado em 40 prestações de R$ 800. O valor é quase metade do que tira por mês, cerca de R$ 1.800 com ajuda de uma pensão do ex-marido, já falecido.
Além de sustentar a casa, ela ajuda os quatro filhos. "Estou terminando de construir uma casa para minha filha, que vai casar. E depois quero ver se começo a guardar dinheiro, para garantir uma vida boa lá na frente."
Outra doméstica representante deste novo perfil é Rosangela Pereira da Silva Gomes, de 32 anos, do Rio. Ela vai de carro, um Siena, para as três casas onde trabalha e, além disso, também está por dentro do mundo virtual.
Disse que já passou por cenas de preconceito por conta da profissão. Certa vez, um funcionário de um dos prédios onde ela trabalha perguntou se ela andava de ônibus. Ela respondeu que não, porque tinha carro. O rapaz, então, desconfiado, quis saber onde estava o carro de Rosa. “Eu mostrei no estacionamento e ele respondeu ‘mas aquilo ali não é carro de empregadinha não, é carro de madame’. Eu falei ‘olha, trabalhei muito, eu e meu marido, para conseguir comprar esse carro’. Só porque sou doméstica não posso ter um carro melhor?”, indagou Rosa.
Para ela, ser doméstica é mais vantajoso do que ser lojista ou secretária, profissões que ela já exerceu. “Trabalhei em uma loja de departamento, eram quase 12 horas por dia, uma exploração, não tinha direito a nada, era muito ruim o ambiente. Tudo fachada. Pedi demissão. Não tinha tempo de fazer mais nada na minha vida. Como doméstica não trabalho todos dias, tenho tempo para fazer minhas coisas, levo meu filho na escola e ganho mais”, disse ela, que é diarista há cinco anos.
Segundo Rosa, seu salário atual é o dobro do valor que recebia no comércio, onde, apesar da baixa remuneração e do clima pesado, não sentia preconceito.

Negócio próprio
Moradora de Belo Horizonte, a doméstica Maria Helena Pereira, de 36 anos, está na profissão há 18. Com o dinheiro que recebeu, comprou carro, casa e acaba de comprar uma loja para começar o próprio negócio.
Ela disse que voltou a estudar - voltou ao primeiro ano do ensino médio -- para buscar um caminho diferente na sua vida. "Daqui a um ano me vejo em outra profissão. Eu quero ter o meu próprio negócio. Não que eu não goste do que eu faço, mas essa vontade de mudar está dentro de mim", disse.
Os salários das domésticas, que eram abaixo do mínimo, costumam ser, na capital paulista, entre R$ 700 e R$ 1.200.

Mudança no perfil
A presidente do Sindicato das Empregadas e Trabalhadores Domésticos da Grande São Paulo, Eliana Menezes, confirma a mudança no perfil das domésticas. "Antigamente, o emprego doméstico era tido como da época da escravidão, quando se trabalhava por comida. Não havia amizade, havia submissão."
Segundo ela, a mudança no perfil ocorreu por conta do aumento da renda, com instauração de piso salarial para a categoria, pouco superior ao salário mínimo. Confirmou que há diversos casos de mulheres que estudam e fazem cursos para se qualificar. Os salários, que eram abaixo do mínimo, costumam ser, na capital paulista, entre R$ 700 e R$ 1.200.
Ela pondera que as diaristas, que podem ganhar bem mais, até R$ 2.000, deveriam pensar melhor e tentar emprego com carteira assinada. "Esse é o ponto xis, ganham mais por dia, mas perdem imensamente mais. Não têm férias, não têm 13º. O nosso trabalho é conscientizá-las disso, de seus direitos."
Apesar da melhoria na situação das domésticas, conforme aponta o sindicato, o IBGE informa que, de modo geral, as condições de trabalho da categoria no Brasil continuam precárias - mais de 70% não tem carteira assinada e o rendimento médio mensal é de R$ 395.
A doméstica Jacionete Silva Santos de Paula, de São Paulo, disse que já aprendeu a lição. Tinha emprego com carteira assinada e ganhava um salário mínimo. Pediu demissão há um mês porque o trabalho estava pesado demais. Propôs que a patroa dobrasse seu salário e ainda contratasse uma diarista para ajudar, mas ela alegou que não podia.
"Chega de escravidão, não nasci para isso. Tenho consciência dos meus direitos e sei que posso encontrar um emprego melhor."

Carolina Lauriano, Mariana Oliveira e Pedro Triginelli
Fonte: www.g1.com.br (19/09/2010)

quarta-feira, 15 de setembro de 2010

Lula e América Latina: o fim de uma era?

Marcela Sanchez, The New York Times
Em Santa Cruz de la Sierra (Bolívia)


O presidente Luiz Inácio Lula da Silva e a primeira-dama, Marisa Letícia, participam das comemorações do 7 de Setembro
Não é fácil ser líder regional na América Latina. Agradar aos seguidores em seu próprio país já é difícil; mas os desafios aumentam quando se tem o perfil do presidente brasileiro, Luiz Inácio Lula da Silva, no qual depositaram suas esperanças os milhões de pessoas que viram nele a capacidade de influir nos temas políticos e econômicos mais prementes nestes tempos polarizados.
Para alguns nesta cidade, o presidente brasileiro ficou aquém de satisfazer suas expectativas, e agora contam os dias até 3 de outubro, quando seus vizinhos brasileiros irão às urnas para escolher um novo mandatário.
Localizada na área mais rica e branca da Bolívia, no leste, Santa Cruz foi considerada por muito tempo o bastião da oposição ao primeiro presidente indígena do país, Evo Morales. Em busca de maior autonomia do governo central, os cruzenhos - além de aspirar a separar-se da Bolívia - tentaram utilizar os laços econômicos e a proximidade geográfica com o gigante sul-americano para se manter distantes de La Paz.
Lula, no entanto, nunca ofereceu maior apoio à posição de Santa Cruz, uma decisão que se revelou sábia tanto para o Brasil como para a Bolívia. Morales não só foi eleito democraticamente em 2005, como reeleito em 2009; portanto, esteve no poder mais tempo que qualquer de seus predecessores desde que a Bolívia regressou à democracia, em 1982. Isso gera um nível de estabilidade que o Brasil aprecia.
Com relação ao tema das drogas ilícitas, potencialmente mais desestabilizador, o presidente brasileiro também enfrentou um difícil desafio. Enquanto se desligava dos esforços de Morales para glorificar a folha de coca, Lula teve de tomar cuidado para não ser vinculado às políticas antidrogas intransigentes e impopulares que Washington promoveu na Bolívia. Desde que Morales, um antigo líder produtor de coca, expulsou a agência antidrogas FDA de seu país, Lula aprofundou a cooperação entre a Polícia Federal brasileira e suas contrapartes bolivianas, sempre cauteloso para manter um papel discreto.
Isso foi só na Bolívia. Em seus oito anos de governo, o líder brasileiro teve de navegar com habilidade pelas expectativas de muitos outros na região.
Na Colômbia, por exemplo, com frequência o governo de Álvaro Uribe pareceu desiludido com o apoio pouco entusiástico do Brasil a sua campanha anti-insurgentes. Enquanto na Venezuela o presidente Hugo Chávez foi um promotor ardoroso da crescente influência de Lula na região - quando não se dedicava a solapá-la.
Durante esse período, Lula conseguiu manter sua popularidade em casa e no exterior e levantou o perfil do Brasil nos âmbitos regional e global. Favoreceu a integração regional através da criação da União de Nações Sul-americanas e teve um papel importante nas discussões globais de comércio, mudança climática e na crise econômica mundial.
De fato, o crescente peso econômico de países como Brasil, China e Índia levou ao surgimento do Grupo dos 20 como o cenário oficial predileto para coordenar a reação internacional à crise, substituindo o G-7.
Lula também extrapolou às vezes. Particularmente, seu esforço para cultivar uma relação com o presidente do Irã, Mahmud Ahmadinejad, teve pouco êxito e foi visionário a ponto de fazê-lo parecer insensível e indiferente à situação da população iraniana.
Não há dúvida de que depois da partida de Lula a região perderá seu único líder de estatura internacional e com uma capacidade incomum de convocação. Esta semana o Instituto Internacional de Estudos Estratégicos, com sede na Grã-Bretanha, emitiu seu relatório estratégico anual, em que inclui um extenso exame da crescente influência global da América Latina. Difícil imaginar que esse capítulo se justificasse sem a gestão de Lula.
De todo modo, especialistas brasileiros concordam que a saída do mandatário não levará à retirada do Brasil do cenário internacional. Como disse o embaixador americano Thomas Shannon em uma entrevista em São Paulo: "O Brasil não poderá voltar atrás na região". O veterano diplomata, que ocupou o cargo de secretário assistente de Estado para assuntos do hemisfério ocidental de 2005 a 2009, promoveu por muito tempo a maior participação do Brasil na região, que vê menos como concorrência e mais como um complemento necessário para os esforços de Washington.
Dilma Rousseff, a sucessora escolhida por Lula - que foi sua chefe de gabinete -, provavelmente ganhará a eleição, claramente favorecida pela popularidade de 80% do atual mandatário. Rousseff é considerada uma tecnocrata eficiente, mas menos carismática e sem o perfil internacional de seu chefe.
Mesmo assim, Rousseff terá de subir ao palco internacional, e não só porque seu país sediará a Copa do Mundo de Futebol em 2014 e os Jogos Olímpicos dois anos depois. O Brasil enfrenta crescentes preocupações de segurança que não poderá enfrentar isoladamente. O Brasil é o segundo consumidor de cocaína do mundo, 80% da qual provêm da Bolívia. Só isso exigirá que a nova líder seja mais convincente que seu antecessor para conseguir que Morales enfrente o narcotráfico com mais seriedade.

Tradução: Luiz Roberto Mendes Gonçalves

Fonte: www.uol.com.br (15/09/2010)